A voz da água

CCS, janeiro de 2019


A voz nunca parou de dizer –
pouca – ela está rouca –
Diz que procura antes de tudo me ter -
Não mais tão pouca –
de me conquistar apesar de mim
E de todos os verões com sede louca
Continuarem através das estações
Cujos corações - Sedentos -
Lhe impedem

A voz sentou-se na cabeceira
pela madrugada
E me pediu água -
Para não mais estar embriagada
de sua própria infinita
e atordoada água –
elas me pedem
Eu não ouvi - ela foi embora
Quando acordei
Nada mais pude encontrar
senão uma prestação sua -
me pegou como rede
Sem voz - lhe implorei
Que me deixasse - desta vez -
Não mais morrer -
Mas viver - de tanta sede

Verde musgo

15 de janeiro de 2018

Poema publicado na antologia Poesia Agora - Verão 2019

Enquanto a noite destripa
os diferentes tons de verde
nos degraus da escada
eles decidem
– como um exército
lutando pela nação errada –
recuar, desmanchados
numa alegria disfarçada de si
que de si não difere em nada
Os diferentes tons de verde
mesmo estripados pela noite
continuam com a decisão
que provocou seu açoite:
sua eterna diferenciação
E amontoados sob a escada
antes de mais nada, dizem em coro:
não tenha sua vida abreviada

Estancada

CCS, 27 de novembro de 2017


Estancada

Escultura de RES, novembro de 2017

Numa mão
goiva;
na outra,
luva
que protege;
nos olhos
óculos,
também,
de proteção

Todos os procedimentos estão devidamente corretos –
eles só não podem
me proteger
da tarefa
de fazer:
a mais perigosa

Sai uma lasca
– saem muitas –
só não sai
– ainda –
a tirânica –
a que fará
a escultura
respirar
todo meu ar

Olho se move
entre escultura
e modelo
– mentira –
olho só se move
se você se mover –
entre infância
morte
e o mundo inteiro

Não sei para que fui nascer
se não sei fazer
coisa alguma
que não exija
algum tipo de fazer
penso com as mãos –
meus membros são
soldados estrangeiros

Uma lasca sai
a outra não
vai
a goiva vacila
ou sou eu?

O que me garante
que a lasca saiu?
é alguma veia
que belisca meu braço
por dentro
o pulso treme
a chancela da lasca
só levanta
se sair sangue
se mexer
antepassados
jarros
e poros;

se meu sangue parar
de correr só em mim
e passar para ela
e dela
(um pouco de tudo)
es-
correr

Poderia eu te deter
se só o que tens a fazer
– assim como eu –
é escapar-me de mim?

E todo o abandono
de minha vida
– de muitas outras
que não sei
se eram minhas –
materializou-se –
não somente ali
mas ali
pude olhar
em seus olhos
– vazados –
e ver que ele
– o abandono –
tomou o meu lugar
ameaçando
– além de mim –
qualquer definição
de dicionário.

Seus olhos –
por serem
vazados –
repletos de
abandono
não mais
vazavam;

Sua boca
por ser
um túnel –
não mais profere
o suspirar
de qualquer dor
mas cumpre o
eterno falar
comprometido
com o silêncio:
a dor em
estado de
efervescência

Sem lascas
para contar
como suas, ......................................... (ela veio
posso ver ..........................................(quando ela chegou?
a escultura ........................................ (estanque
de lacunas ......................................... (estancadas
e crateras ......................................... (estampadas
enfim .............................................. (escapada
andar sozinha:
ela não existe
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