Marquês de Sade

A partir de uma aula de Manu Gaden no Atelier do Centro

CCS, 18 de setembro de 2018

Marquês de Sade é tido como um dos escritores mais aterrorizantes da história devido a histórias que contêm, de forma abusiva estupros, incestos, orgias, violações físicas, sodomia, pederastia entre outras práticas que, na época, eram consideradas criminosas.

Libertinagem

Porém, além de todo esse enredo que ronda seu nome, podemos dizer que a voluptuosidade de Sade se dá entre as frases que constituem seus romances — são elas as próprias cenas dos crimes: cada personagem — cada palavra — copula com todos as outras, submetendo-se a inúmeras regras que não mais nos pertencem e que existem justamente para poder excluir as regras do sentido e da linearidade, tornando-se um carrossel discursivo, fazendo a razão cair do cavalo e o texto ser a mola que propulsiona um movimento perpétuo e circular. É por isso que, nos romances de Sade, os mais variados tipos de incestos são feitos: quando o que está em jogo é o discurso, não se tem limites quanto ao gênero.

Libertinos são pessoas que, sobretudo, se desviam de um caminho imposto, faltando ao cumprimento de algum dever. Ou seja, libertino é exatamente o que Sade não é — não da forma que se imagina um libertino –, dado que não falta ao seu compromisso de escrever ininterruptamente seus crimes — e portanto de violar o que sua constituição o pediria para ser.

Interdito

Talvez a vida, a sociedade, as pessoas, a matéria cotidiana nunca aceitaria por completo a fantasia proposta por Sade: não só por qualquer lei moral, mas porque algo iria se esgotar — ao passo que aquilo que Sade quer só aumentaria — não se pode, por exemplo, matar duas vezes a mesma pessoa — ou ainda, não há como transar infinitamente sem atingir o gozo — o corpo não permitiria coisas assim. Ao contrário disso, os libertinos de Sade estão constantemente em atividade — na realidade, não daria para ir mais, não poderia se avançar no absurdo — iria sempre sobrar muita coisa — a impossibilidade do que achamos ser realidade só confere ao próprio discurso infinitas possibilidades de fala, fazendo com que somente a linguagem permita a construção de Sade — somente ela é infinita na mesma proporção que a constituição que este ser pede para poder se construir.

Repetição

Sade não se encontra preso apenas por uma prisão física — mas está submetido a leis que ele mesmo não conhece — apenas vislumbrando-as quando escreve episódios que, de alguma forma, se repetem, e que gritam para que sua forma exista. Sade se submete, ele mesmo, a uma frequente violação por uma linguagem que é, por excelência, criminosa — ao ser o contrário do gozo: não finge cessar seu desejo — não encontra vacância — mas promete apenas que ele sempre lhe dê mais. Assim, Sade construiu com suas mãos janelas que dão para a realidade, em vez de ter enganado-se com aquilo que achamos ser realidade, quando, na verdade, estamos mergulhados na ilusão — deste modo, Sade conseguiu colocar a cabeça para fora de sua prisão e ter se falado — e talvez seja esse o motivo pelo qual Sade entrou para a história — o que é muito mais excêntrico do que qualquer suposta excentricidade do conteúdo de suas histórias libertinas — pois criar um alimento feito de uma língua que, inicialmente, ninguém vai ouvir e que se baseia numa repetição infernal é, sem dúvida, subversivo, pois vai contra a natureza do corpo de qualquer um — o de gozar e dormir.

Loucura

Os romances de Sade não são feitos de histórias mas do próprio tecido da linguagem que o alimenta deixando-o, ao mesmo tempo, sempre com fome — são aquilo que o fazem permanecer vivo — são aquilo que o salva de sua própria vida — Sade é um sobrevivente de sua própria vida — tendo todas as condições necessárias para fazer seu desejo morrer, Sade conseguiu não só estar perto do seu alimento mas criá-lo, afastando-se de um estado mórbido — estade esse que, inclusive estaria mais próximo do gozo literal, enquanto que o gozo que Sade tem ao escrever seus crimes está sempre começando e não vê fim — ele comete crimes maiores do que os que cometeu fora do papel — ele criminaliza sua própria ação ao não matá-la (e ainda assim, continua vivo) — ele faz com que seu pesadelo permaneça vivo. Assim, enquanto achamos Sade um louco, ele está muito mais próximo de seu alimento do que nós, que, batendo punheta para milhares de impedimentos e negações, pensamos ser: a loucura de Sade é a própria sanidade da qual tanto fugimos.

Conversão

Talvez a fome em estar vivo de Sade era tamanha que ele não precisava se esforçar para converter uma energia mórbida de matar e fazer crueldade em energia criativa — mas não seria esta energia, talvez, algo tão violento que logo ao nascer já converte-se em outra coisa que não o matar? Ou ela é tão violenta que não vê diferença entre matar e não matar? Sem distinguir gêneros — pertencendo assim absolutamente ao mundo do discurso, não seria ela o próprio desejo de sobreviver, de quem está realmente à beira do abismo e não hesitaria em agarrar qualquer minúscula pedra que promete lhe salvar — independente de que pedra seja essa? Sade é um artista não por ter escrito, mas por ter feito da escrita algo que salvou sua vida do que ela poderia ter sido — assim, Sade era livre mesmo sendo prisioneiro.

Sobre o poema Confissão de RES

CCS, 6 de novembro de 2018


Sobre o poema Confissão [1] de Rubens Espírito Santo, gostaria de começar a expor algumas possibilidades de leitura para a seguinte frase:

[…] Possuído desde a infância de enlevo, agora suspenso […] Antes de começar, porém, é necessário um breve esclarecimento sobre a linda palavra enlevo. O dicionário dá como um possível sentido a palavra êxtase e, para esta palavra, Santa Teresa d’Ávila dá os seguintes:

1.União;
2.Arrebentamento;
3.Elevação;
4.Voo do espírito;
5.Arroubo.

No capítulo 20 dO livro da vidaO livro da vida, Santa Teresa d’Ávila confessa que, apesar de todos essas palavras serem uma coisa só, ela gostaria da ajuda de Deus para poder entender, ainda assim, sua diferença. Ela diz que o acontecimento destas palavras se dá no quarto grau da oração, ou quarta água, um estágio muitíssimo alto de oração. Os que nele chegam não chegam por merecimento, mas sim pela bondade de Deus. São muito poucos os que nele chegam; só do segundo grau, o grau de quietude, quase ninguém passa que dá vergonha dizer, diz ela. (Neste grau, o que devem fazer o que chegam, é agir sem ruído). Neste capítulo, ela tenta explicar o que acontece quando se está na divina união e que, na elevação, a alma sobe como algo que precisa sair de uma fogueira que arde muito forte e que cresce impetuosamente em seu corpo. No quarto grau, a alma sente que não está morta de todo — mas está morta ao mundo — e como ainda tem os sentidos, os usa para perceber que ainda está nele e sentir sua solidão, e aproveita-se do exterior para fazer entender o que sente. Acredito que o quarto grau tenha muita similitude com a relação de Rubens e seu desenho: é como se desenhar fosse uma ação para entrar na realidade, ou ainda perceber-se nela, já que a sua realidade mesma é absolutamente outra — uma ficção fantástica e irreal. E acredito que a frase […] Possuído desde a infância de enlevo, agora suspenso […] só pode ser escrita por quem experienciou este enlevo, por quem vive esta ficção — seja de que forma for — inclusive a própria escrita desta experiência possa ser essa experiência. (Isto parece uma rua sem saída…) Acredito, porém, que, sendo ou não o desenho ou a escrita essa experiência, talvez não tenha como tateá-la, onde e como ela começou; sei que ela é única, histórica e longínqua.

A frase
[…] Possuído desde a infância de enlevo, agora suspenso […] possui as seguintes possibilidades de leitura:

Possuído de enlevo desde a infância, agora suspenso

Possuído desde a infância de enlevo, agora suspenso

Possuído desde a infância de enlevo, agora suspenso

O verbo possuir, em alguns casos, pede algum complemento. Aqui, o verbo está conjugado no particípio, então ele pode pedir um dos seguintes tipos de complementos: um que venha precedido da preposição de ou da preposição por. Ou seja, pode-se estar possuído de, que indica quando se tem tem algo, ou possuído por, que indica quando se é apoderado por algo. Como a frase original está aberta, podem ser ambos os casos. Então, nem (1) nem (2) nem (3) está exatamente certo ou errado, mas são possibilidades de leitura.

Em (1), há uma inversão da frase original. Com o complemento de enlevo perto do verbo no particípio possuído, fica mais simples de analisar sua relação. Esta inversão revela que o narrador, desde a infância foi possuído de enlevo, o que é, por si só, uma construção decerto muito misteriosa: como pode-se possuir algo que é, por excelência, algo fugidio, que indica sair de si (não fugir de si), para ir de um encontro ao totalmente outro? Como pode-se possuir, há tanto tempo, a capacidade de algo que precede (ou que é ela mesma) a união com o divino, sendo uma pessoa? Esta primeira possibilidade de leitura leva diretamente à uma outra frase do mesmo texto:


[…] Faça de mim algo sem permeação com o senhor […]

O narrador aqui pede o impossível: que não haja mais diferença entre ele e o senhor que são, essencialmente, coisas de matérias diferentes. A eliminação da diferença é dada pela negação da palavra permeação, substantivo do verbo permear, que significa justamente atravessar. Então, ele não quer mais ser atravessado, pois algo só pode ser atravessado por algo se for diferente dele, como um copo de água atravessado por um raio de luz; se este copo estivesse cheio de luz, não daria para distinguir o raio que entra dos raios nele contidos.

Continuando as possibilidades de leitura da frase Possuído desde a infância de enlevo, agora suspenso, há ainda outras duas:


2. Possuído desde a infância de enlevo, agora suspenso
3. Possuído desde a infância de enlevo, agora suspenso

Em (2), o narrador diz que está possuído e, como não complementa esse verbo, entende-se implicitamente que ele esteja possuído por algo, como entendemos normalmente esta expressão. O enlevo, ao lado da palavra infância, refere-se a ela, ou seja: a construção (2) diz que a infância é algo de enlevo. Isto lembra algumas coisas essenciais, inclusive em relação à arte: a capacidade da criança não distinguir realidades, por exemplo, quando ela faz, com uma dobradura de papel, um barco, ela não está com intenção de representar um barco, mas de estar, mesmo, neste barco, e a realidade em que ela está se converte na realidade em que só existe este barco — o que me lembra a capacidade de ficcionar. Além disso, ou, concomitante a isso, a capacidade de ficcionar que existe na infância mostra sua proximidade à tragédia — Nietzsche dizia que, no último estágio das metamorfoses do homem, depois do camelo e do leão, está a criança, que inaugura a tragédia: para brincar o brinquedo dos criadores é necessário ser uma santa afirmação: o espírito quer agora a sua vontade –; sua proximidade à origem — à verdade — à poesia — ao erótico mundo dos deuses, ou seja, ao mundo não-natural, ou seja, artificial, ou seja: à gratidão mesma de viver — sem criar gratidão, naturalmente, eu não sou uma pessoa que tenha merecimento mesmo de coisa alguma — e sem estar em estado de graça, viver é impossível –; ter o ouvido colado à vida — à delícia de saber-se sujo e só e ainda assim deslizar ou subir o morro dos ventos uivantes com a mesma intensidade — (existindo ou não companhia para isso, inventa-se uma — existindo ou não morro para isso — inventa-se um morro; um vento; um uivo — a união dos três sou eu — eles estão em realidades terrivelmente distantes, ou, pior: eles existem em realidades desniveladas — existindo ou não, eu morro para encontrá-las, para achar o caminho de volta à casa — tento pegar meus pedaços espalhados pela rua — por favor, Senhor!).

Há, ainda, uma terceira possibilidade de leitura da frase:
3. Possuído desde a infância de enlevo, agora suspenso

Pode-se ler a expressão agora suspenso como se ele estivesse se referindo ao próprio enlevo. Porém, ele pode se referir ao narrador, como em:


Eu, que fui possuído desde a infância de enlevo, agora estou suspenso


O que é estranho é que o início da frase já indica uma suspensão bruta: em (1), alguém possuído de enlevo — este alguém só pode estar suspenso — só pode ter tido sua vontade aniquilada — para estar próximo de algo tão fugidio como o enlevo; em (2), o narrador já expressa que foi possuído por algo, ou seja, que foi suspenso de si mesmo, que teve suas faculdades distanciadas desde sua infância que não é uma infância qualquer, mas de enlevo, como dito acima — só de pensar já me sinto excitada. Mesmo depois de duas possibilidades de leitura que afirmam uma suspensão, esta terceira ainda afirma uma outra, que só se dá agora.

Após essa cansativa tentativa de análise, eu confesso que não faço mesmo ideia de que coisas ele fala. Não fazendo ideia alguma — não conseguindo pensar em nada — não conseguindo enxergar direito tendo os olhos tão cheio de lágrimas que, talvez sejam mesmo meu olho — talvez meu olho seja atrofiado e precise delas para que elas enxerguem através dele — Santa Teresa dizia uma água atrai a outra, a água da lágrima atrai a água da oração — talvez elas saiam, mesmo que eu as arranque por dentro, pois elas sejam meu órgão de visão — talvez eu não seja nada sem elas e elas, por sua vez, não existam sem algo que é sem si mesmo: o mestre.



____________________________________________________________
[1] Confissão
Para Sor Juana Inês de la Cruz
De Rubens Espírito Santo, 4 de novembro de 2018

Senhor Deus, faça de mim um monge encarcerado na própria realidade cotidiana
Faça do meu corpo um descorpo
Sem sangue nem nenhuma forma de opção sexual ou gênero
Faça de mim algo sem permeação com o senhor
Que minhas veias secas de sangue filtrem o suor da Cruz para viver
Irmã Juana Inês de la Cruz
Ore pelo que resta de mim neste mundo, este descorpo incorporado, Possuído desde a infância de enlevo, agora suspenso, irmã me tenha junto de vós. Que estas palavras não sejam mais deste mundo, mas que inaugurem minha estadia no coração do universo. Que a sina que me atravessa recomponha meus ossos em marfim para que eu possa estar em comunhão com o seio da Terra Santa. Possa também fincar origem de louvor e consagração no vórtice da tempestade, arrastado de um lado para outro, sentir o vento gravando em meu peito o nome divino que vim suportar.

O Morro dos ventos uivantes a Histeria

CCS, 14 de agosto de 2018


Em 1845, quando tinha vinte e sete anos, Emily Brönte escreveu seu único romance, O Morro dos ventos uivantes, sob o pseudônimo masculino de Ellis Bell. Um ano depois, terminou-o e morreu de tuberculose quando fez trinta anos. Bataille afirma, em A Literatura e o Mal, que sua morte tem relação com a experiência profunda que Emily Brönte teve ao escrever O Morro dos ventos uivantes.

O Morro dos ventos uivantes tem um enredo simples que não é o que lhe confere relevância. Ele gira em volta do amor e da cólera existente entre as personagens Catherine e Heathcliff, seres apaixonados que nunca chegaram a consumar seu amor. Divide-se em duas partes: a primeira, protagonizada por Catherine Earnshaw e a segunda, por sua filha, Catherine Linton. Nestes episódios, suspeito estarem presentes algumas das seguintes noções: histeria, intermitência, origem, interdito.

Aqui estão, além de características e passagens de um livro muito importante para mim (um dos primeiros romances que li na pré-adolescência e que ainda revisito hoje), apenas conjecturas e indagações.

Apenas para situar os que não leram — pois não se resume um livro desses contando sua aparente história — Catherine era uma menina bem-nascida e Heathcliff, seu irmão adotivo, cuja origem era desconhecida. Eles eram apaixonados e, assim, viviam num mundo à parte que era, para eles, mais sólido que o mundo real: sua selvageria libertária — condição da poesia em que, talvez, a infância adentra — seria impedida no cotidiano tão fechado quanto o deles — ou quanto aquele ditado por qualquer sociedade. Certo dia Catherine casa-se com um homem rico, causando a fuga de Heathcliff, que volta anos mais tarde para se vingar.

Histeria

Catherine Earnshaw oscilava entre suas regras próprias e as regras que lhe eram impostas. Era uma pessoa de personalidade intensa e moldada por uma movediça angústia; explosiva e absorvida em delírios, movia-se, aparentemente, por seus impulsos — mas não totalmente: não se casou com aquele por quem seu pulso fervia, Heathcliff, mas com aquele cuja companhia resultaria numa união aceitável socialmente e financeiramente satisfatória — mesmo que isso fosse contra todos seus impulsos febris — e até os aumentasse, sendo causa da frequência deles — seria talvez para a manutenção da loucura que Catherine recusou sua loucura primeira — aquela com Heathcliff, que lhe fazia retornar à selvageria infantil, mas que lhe era impossível hoje sustentar?

Interdito

Catherine não conseguiria escolher por Heathcliff, mesmo indo contra seus sentimentos fortes; sua força não era suficiente para movê-la neste sentido — mas contra ele — talvez sua fraqueza seria. Tanto Heathcliff quanto sua razão funcionavam como interditos para seu desejo, fazendo-a oscilar entre ela e algo representado por Heathcliff — algo diversamente proibido: entre ela mesma e sua mais profunda fenda — consumar seu amor com ele seria destruir a si própria; ficar com Heathcliff seria estar no intervalo, ao passo que a figura de Linton lhe concede contínuas promessas de interrupção da fenda com motivos externos, superficiais e temporários: boa casa, bichos de estimação, boas roupas.

Ela mesma profere a gravidade que teria uma relação com Heathcliff com as seguintes declarações — que não nos parecem ser de amor — ao menos não aquilo que normalmente se concebe como amor — e talvez sejam, justamente, os reais motivos pelos quais ela escolhera não ficar com ele — para tentar se salvar — recusando, porém, sua tentativa de salvação:

[…] Meu amor por Heathcliff se assemelha às rochas eternas sob o bosque, uma fonte de alegria pouco visível, mas necessária, Nelly, eu sou Heathcliff! Ele está sempre, sempre em minha mente. Não como fonte de prazer, […] mas como meu próprio ser. Então, não volte a falar da nossa separação, …. é impossível….

Emily Bronte, O morro dos ventos uivantes, Zahar, edição comentada, pág. 111

[…] ele (Heathcliff) nunca vai saber o quanto eu o amo…e isso não é porque ele é bonito, Nelly, mas porque é mais eu mesma do que eu. Qualquer que seja a substância das almas, a minha e a dele são feitas da mesma coisa.

Emily Bronte, O morro dos ventos uivantes, Zahar, edição comentada, pág. 109

Origem

Em um de seus poemas (Often rebuked…), Emily Brönte parece delinear uma espécie de conclusão da trama de O morro dos ventos uivantes, como se trilhasse um intermediário para as possibilidades de Catherine: não o caminho que ela escolheu — o que recusa completamente a selvageria representada por Heathcliff — nem o caminho oposto — aquele em que ela a abraçaria — ambos apresentam riscos dela se perder, e foi o que aconteceu — mas um caminho do meio:

Muitas vezes repreendido, porém sempre retornando
Aos primeiros sentimentos que nasceram comigo,
Trocando a busca por riqueza e aprendizado
Por sonhos de coisas que não podem ser:
Hoje, não vou procurar a região das sombras;
Tenho medo de sua insustentável e lúgubre imensidão;
E visões aumentando, legiões após legiões,
Aproximam tão estranhamente o mundo irreal.
Caminharei, mas não nos velhos rastros heróicos,
E não nos caminhos da moral elevada,
E não entre as faces parcialmente distintas,
As formas nubladas de uma história há muito passada.
Vou andar onde a minha própria natureza seria líder:
Aflige-me escolher um outro guia:
Onde os rebanhos cinza nos vales estão se alimentando;
Onde o vento sopra selvagem no lado da montanha.
Que podem revelar as montanhas solitárias?
Mais glória e luto do que eu possa dizer:
A Terra que acorda um coração humano para o sentimento
Pode centrar ambos os mundos do céu e o inferno.

Ao escolher o caminho liderado por sua própria natureza, aquele por onde o vento sopra selvagem, ela admite que, neste caminho, as montanhas têm mais a dizer que ela mesma — talvez seja este caminho próximo daquele que ultrapasse os limites da histeria e esbarre no da arte — em que a suspensão de leis, bem como as leis da sua vontade de fala é inaugurada — e com isso, a suspensão de outras coisas também — e o que era lençol de trevas vira possibilidade para acontecer o brilho da luz das estrelas — tornando-se ambos criaturas sígnicas tanto de luz quanto de escuro — e neste morro de ventos uivantes, céu e montanha não são apenas fundo e figura — as personagens principais talvez seriam o uivo dos ventos que se demora quando há a presença do morro para os receber — e nada para os parar — assim como nada para acontecer.

Catherine morre ao dar à luz uma menina, filha de Edgar Linton, o homem por quem Catherine ficou ao se recusar a seguir seu desejo por Heathcliff. Como se o resultado de sua recusa ao proibido custasse sua morte — ela não pode tocar o proibido, mas poderia fugir dele?

Por que traiu seu próprio coração, Cathy? Não tenho uma única palavra de consolo para oferecer. Você merece tudo isso. Matou a si mesma. […] Amo a minha assassina…mas a sua! Como eu poderia?

Heathcliff ao reencontrar Catherine, quando ela está em seu leito de morte, pág. 189

Intermitência

Como uma contração muscular dolorosa e intermitente, a gravidez de Catherine causou, além de sua morte, seu próprio nome: a segunda Catherine, Catherine Linton. Como se tivesse de nascer outra Catherine para dar à lembrança da primeira um concreto lembrete daquilo que ela não pôde fazer: mergulhar em sua própria inanidade e trazer, do fundo do mar, uma pérola — suja de silêncio — não de omissão — que Catherine e Heathcliff não suportaram pronunciar — a histeria que Catherine não soube articular e a matou ao gerar vida — a dureza que Heathcliff não soube amolecer e o matará, ironicamente, de inanição.

Em seguida, há um diálogo entre Catherine Linton criança e Ellen, a governanta:

– Ellen, quando é que vou poder andar até o alto daqueles morros? O que há do outro lado…é o mar?
– Não, srta. Cathy, são outros morros, iguais a esse.
– E como são aquelas rochas douradas quando a gente fica debaixo delas?
– Expliquei que eram rochas nuas e que mal tinham terra suficiente em suas fendas para permitir o crescimento de árvores mirradas.
– E por que é que continuam tão iluminadas muito depois de ter escurecido aqui?

Nas proximidades do Morro dos Ventos Uivantes, a desgraça estava instaurada em todos os corações, como mostra a fala de Ellen sobre as rochas nuas que mal têm terra em suas fendas para permitir o crescimento de árvores. Como uma entidade verbal barulhenta pronta para embaraçar qualquer ouvido — e produzir o despertar –, Cathy surge com falas infantis que escapam ao sentido e desejam subir à impenetrabilidade do alto dos morros — ao excesso de falta da histérica.

Arte

A esse excesso de falta, poderia-se entender alguém que não existe — alguém que procura, portanto, alcançar o dom da existência — dado que a existência não pode resumir apenas à que me tem, como clama Catherine: […] há ou deveria haver uma existência para além de nós. De que valeria eu ter sido criada se estivesse inteiramente contida aqui? — por que, entrementes, não pode-se, ao menos, vislumbrar relances de tal benção, já que se cultiva, com beatitude furiosa, ser alguém segundo outrem — um ser criado — ser verificado por algo que, ao passar a existir, possa me verificar — convertendo a histeria em viscosidade capaz de afundar homens — cujos pés tornam-se raízes deles mesmos — e ao desistirem ambos de seu sexo, relacionam-se — ser criado e criador, suspensos, relacionam-se na mesma palavra — aquela que minha vida bebeu — e por isso eu não posso ler.

www.000webhost.com