Um discípulo com crase e sem assento
pode escrever um texto sem frase

CCS, 4 de maio de 2019

Nesta semana, o Rodrigo fez um cartaz e nele havia um erro: não tinha crase na frase Das 9h00 as 17h00. Assim que ele mandou o cartaz por email, eu respondi avisando-o sobre isso. Dias depois, ele mandou um email com o cartaz supostamente corrigido, porém a crase não estava corrigida.

Bom, por que estou dizendo tudo isso? Parece um texto contendo ladainha e picuinha, mas leitor invisível, eu prometo que não é isso — fique comigo um pouco mais nesta noite de sábado. Se você ficar comigo, sinto que poderei ficar com quem quiser — até mesmo com ninguém — e assim estarei bem.

Continuando a história do Rodrigo. Eu fiquei pensando no porquê dele não ter corrigido. Antes disso, fiquei pensando no que me levou a escrever um email pra ele dizendo sobre a crase. Pensei que, se não acontecessem inúmeras vezes a cena em que o Rubens me chama em seu estúdio para eu corrigir os erros de quem quer que seja, eu não teria coragem de mandar este email. E não teria coragem por carência: por não querer incomodar, não querer ser a chata do português, não querer parecer arrogante por eu saber como usar essa maldita crase. Inclusive, pelo que vejo, não saber usar crase é a coisa mais esperada de uma pessoa: não conheço quem entenda a crase perfeitamente além da minha mãe e tia, que são professoras de português. Às vezes me sinto até um pouco culpada e envergonhada por saber como usá-la.

Ok, voltando novamente à história. Senti uma vontade enorme de falar pro Rodrigo algumas coisas e comecei a entrar num diálogo como se fosse uma escrita automática em pensamento, onde eu falaria várias coisas na segunda feira pro Rodrigo na presença do Rubens. Nesta fala automática, eu comecei a me desembestar falando sem parar, e era mais ou menos assim:

Rodrigo, quando o Rubens pede para que eu demonstre seu erros gramaticais num arquivo, você os corrige na hora. Porém, quando eu os demonstro sem que o Rubens me peça, você não corrige, por que isso? Talvez eu não possa te pedir que me respeite, talvez você tenha uma ideia de Carol que te impeça de me respeitar, talvez o que eu te comunique de mim seja ruim ainda. Mas talvez eu possa te pedir para você esquecer a Carol, esquecer a menina nerd que talvez não te passaria passa cola na escola porque ela é rancorosa, e tem raiva de saber tudo que cai na prova mas é sozinha; talvez você não possa respeitar a Carol pois ela não é nada, mas talvez possa respeitar a discípula.

Se o texto terminasse aqui não seria um texto sem frase, e nem um texto que valesse qualquer coisa. Acredito que a partir daqui começou algo — algo que me empurrou lágrimas, que me socou coisas urgentes para saírem da minha garganta, como um bicho em meu estômago querendo ser vomitado.

Neste momento, esta última frase do diálogo virtual me chocou. Não tanto pelo seu conteúdo, pois talvez já tenhamos este conteúdo como óbvio; mas pela sua construção.

Quero muito fazer legível o que eu li desta frase: Acredito, depois do choque de hoje, que realmente não parece fazer sentido dizer eu sou discípulo ou eu não sou discípulo. Por quê? Porque a palavra discípulo não opera nesta matemática. Como em programação existe esta sentença: clear: both que significa limpar: ambos ou tudo. Ela serve para limpar os dados armazenados numa página para que os elementos possam se posicionar nela num ambiente limpo. Ou seja, mesmo que uma página esteja repleta de elementos, esta sentença curta ordena que o programa limpe temporariamente sua memória, assim um espaço fictício se abre.

Acredito, que assim como esta sentença, a palavra discípulo funciona como se fosse uma função que manda meu programa limpar os dados que existem de mim — e que estão pesando, fazendo meu funcionamento ficar lento — estão atrapalhando meu caminho. É como se, por mais que eu seja nada, como eu tenho muito elementos construídos simplesmente pelo fato de ser uma pessoa com 30 anos (tenho família, história, lembranças, traumas, e a lista é infinita) a palavra discípulo é um operador para que temporariamente eu me mova sem que estes elementos me atrapalhem tanto e assim aja como se eu fosse o nada que realmente sou, mas que não consigo ver por causa da bagunça. Então, se discípulo é um operador, ela precede uma operação, ou seja, uma ação, mesmo que seja interna e que faça a visão das coisas ser outra — e assim, a ação com relação a elas ser outra. Se ela precede uma ação, deve ser atualizada constantemente — como o funcionamento de uma página da internet.

Acredito que cheguei no princípio: ser discípulo não é uma sentença que carece de veracidade ou falsidade, mas um operador para limpar elementos, e assim abrir espaço para eventos poderem se dar.

Então, se ser discípulo não é uma sentença que aceita ser verdadeira ou falsa, o que é? Me parece como algo que não aceita qualquer ansiedade — não aceita levar um peso nas costas onde está escrito “mentira” nem a mentirosa felicidade de ter uma camiseta no peito onde está escrito “verdade” — me parece algo que, por ser, definição, suspenso, não pode ser resolvido, como um problema poderia ser — mas é justamente isso: um problema insolúvel. E estes talvez sejam algo mesmo que mova a história da humanidade. Talvez o problema que é vislumbrado pela possibilidade de ser discípulo seja um daqueles incluídos no Teorema da incompletude de Kurt Gödel, um dos maiores gênios da matemática, que provou matematicamente que existem coisas que não podem ser provadas.

Gostaria de lembrar o porquê eu comecei este texto: porque estava pensando na maldita da crase — quando ela me levou para muito mais longe — e quando eu vi, pela janela do ônibus, as luzes se esvaindo do céu, vi que alguma luz poderia se acender mesmo assim — mas ela não é visível — e talvez é por estas que eu deva me guiar. Nesta hora, segurando meu corpo querendo sair de mim, a mão dela na minha goela, meus olhos já cegos, olhei para o celular e vi a ajuda que tanto pedi, o presente que ansiei: um poema de RES.

Acho que talvez o que Rubens diz diariamente sobre a técnica é isso: um operador que abra um espaço para poder jogá-la fora e com ela tudo o que eu sei — todo o labirinto em que me fiz e no qual me perdi — pois sem este espaço eu não consigo mesmo abrir nem um poro — sou realmente um ser sem ar, sem autorização, sem espaço — e talvez a técnica seja o mais divino engodo: um lugar onde eu pense ter um pouco de domínio — para que então a coisa me domine — e me obrigue a não ser eu — e ser, como queria Gödel, incompleto — com o tempo passando, não um processo em formação, mas em deformação –

não uma obra em construção –
não um desenvolvimento
mas descambamento –
ladeira abaixo –
a palavra
escrava
exigente
engoliu todo novelo –
asas mal dispostas –
mas antepostas que
obrigam o mais vago
ser o mais preciso
e a nem um pouco propícia
forma ser sobreposta:
céu num vidro de maionese

Como a palavra discípulo, talvez pertença à mesma lógica a palavra Deus: não podendo entrar nem no cenário da verdade nem no da mentira, entra apenas na visão daquele que não quer completar o teorema da incompletude — que é incompleto e não precisa de uma brecha pra completar a sua — mas precisa de toda e qualquer brecha pra lembrar da sua — e a ajuda a quem tanto pediu — sem hesitar — é a sua mais bonita ruína.

Um texto clandestino: exilados em miniatura por uma noite

Texto sobre residência CCS — Luca Parise*

Mas o que você diria de um suicídio anterior, um suicídio que nos fizesse regressar, mas para o outro lado da existência, e não para o lado da morte? Só isso teria valor pra mim, não sinto apetite pela morte, sinto apetite de não ser, de nunca ter caído nesse reduto de imbecilidades, de abdicações, de renúncias e de encontros obtusos.

Artaud, citado por Henrique Vila Matas em Breve História da Literatura Portátil, pág. 42


Luca Parise

Biblioteca Luca Parise

Quando você olha para o fim de uma rua que não tem fim, sua tenacidade e força dançam no topo de uma escada que seus olhos percorrem ansiosos — e um leão de pelúcia te dá a mão quando vê que seus olhos quase subiram alto demais.

No meio de nossos silêncios, há uma linha que os entrelaça com falas — ela não tenta mais passar pela garganta e sufocá-la — mas sai pela sua janela carregando em sua ponta balões coloridos — fazendo escultura no céu.


Luca Parise

Máquina de desenhos, Luca Parise, 2018. Foto por Rafael Chvaicer e Ana Viotti

Você desenha plantas de projetos — mas as plantas da sua Máquina de desenho desenham também em você os projetos delas — elas trilham caminhos em seu espírito que você trilha nas ruas da cidade, te autorizando a adentrar edifícios singulares cujas portas só abrem de madrugada — e você não se dá conta que entra neles — talvez porque esteja dormindo quando se aproxima da entrada principal. Como elas, você trabalha não somente quando está compondo — mas quando atinge incertas decomposições.

As sensações mínimas têm compartimentos secretos e inabitáveis — sua fugacidade mantêm intacta uma independência das associações turvas que nossa mania utilitária de se relacionar com os dias costuma fazer — eu me encontrei com várias delas embaixo do pires das suas xícaras — ali, fui atravessada pela chuva de chá preto que você derramou sobre minha razão — acordando em mim um morador errante — que não se importa de pagar sua passagem — porque você pagou a minha — para um exílio — permanente de mim.

Ao dormirmos, de repente, éramos páginas de um livro a serem viradas lentamente pelos dedos que tecem a noite — conversávamos em silêncio — virávamos miniaturas de nós — a melhor forma que um exilado tem de possuir coisas — distantes de nós, possuíamos nada — a não ser nós mesmos — por instantes, eu fiz uma ocupação: virei moradora da caixa amarela da sua escultura — a espuma era meu colchão — e fiz da sua cama meu teto — que tem o pé direito muito alto — e fiz de você a parte que substitui meu não.


Luca Parise

Caixa-retângulo, Luca Parise, 2017. Foto por Rafael Chvaicer e Ana Viotti

Como a escultura no pé da sua cama, percebo-me também como caixas anexadas a outras — onde cada uma tenta se abrir para fora — mas antes não abriram as portas entre si — como num labirinto de retalhos sem relação e construído ao avesso — nesse lugar, assino um contrato com você para perder a aptidão em não me perder — e adentrar a morada dos sonhos que se escondem nas abas de nossas verdades latentes quando estamos despertos — e curiosamente, quando não estamos abraçados.

*Luca Parise é artista visual do Atelier do Centro

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