Aquaman e Zaratustra

Sobre o filme Aquaman e sua relação com Zaratustra de Nietzsche

CCS, 6 de janeiro de 2019

Atlanta

Cientistas acreditam ter encontrado estruturas de Atlântida no meio do deserto do Saara; detalhes batem com história de Platão

Atlântida (ou Atlantis) foi um grande continente lendário situado no meio do Oceano Atlântico. Neste continente, há um paraíso, onde tudo é extremamente fértil e onde há harmonia entre os povos. Atlântida foi pela primeira vez citada por Platão [1], através de uma narrativa que, segundo ele, é histórica e não mitológica. Segundo Platão, Poseidon dividiu a ilha de Atlântida em dez partes, cada uma com um governante [2]. Ao mais velho, o rei, atribuiu toda a ilha e também o mar. O primeiro que reinou foi Atlas, a figura mitológica que instala o equilíbrio entre céu e terra.

A civilização atlante é extremamente avançada, e por isso era muito cobiçada, o que fez com que os atlantes desenvolvessem exércitos armados não só para se defenderem, mas também para aumentarem seu território. Grandes conquistas bélicas foram endurecendo os corações puros dos atlantes, fazendo com que entrassem em decadência. Esta queda da civilização Atlante mostra o processo a queda do elemento divino [3] e, sobre ele, o elemento mortal começar a prevalecer: a condição humana degenerava a condição divina, e isto era mostrado através daqueles que, apesar de parecerem extremamente belos e felizes, estavam inebriados por poder e arrogância. Para deter isso, Zeus, o deus dos deuses que reinava Atlântida através das leis, puniu os atlantes para que eles voltassem a ser moderados. A narrativa de Platão está incompleta e não nos conta qual é esta punição.

Arthur Curry (o nome mundano de Aquaman) é filho de dois mundos: sua mãe é Atlanna, rainha de Atlantis, e seu pai, Tom Curry, um humano mortal da superfície. Aparentemente, sua origem será aquilo que o impedirá de seguir seu destino de ser rei e deixar o trono para seu irmão, filho de dois atlantes.

Contrário à sua vontade de dizer não ao seu destino, Arthur se prepara para assumir seu posto no trono. Para isso, ele precisa pegar o Tridente do Rei, que só pode ser pego pelo único e verdadeiro rei. O tridente é protegido de falsos deuses pelo monstro Karethen, e precisa ser enfrentado por Aquaman. Ao chegar à área do tridente, Aquaman ouve as seguintes as palavras vindas do monstro:

– Você não pertence a este lugar. Protejo o Tridente contra os falsos deuses desde o princípio há mil anos. Já vi os maiores campeões tentarem e falharem. Mas nunca senti alguém tão indigno como você. Como se atreve a vir aqui com o teu sangue impuro mestiço reclamar o maior tesouro da Atlântida? Que assim seja. Mestiço. Você se considera digno, se considera um Rei? Você desonra este lugar com a tua presença.

Aquaman aqui faz uma manobra: ele ouve de outro ser o discurso que ele mesmo se pronuncia há muito tempo. Ele sempre negou de qualquer modo que seria rei, justamente por não se achar digno, por ser um ser cindido, proveniente de mundos diferentes e não ter pureza alguma em seu sangue. De algum modo, Aquaman conseguiu ouvir algo além da sua fala recorrente, aqui repetida por Karethen para provocá-lo; consegue ser uma terceira pessoa entre ele e Karathen. Se Aquaman estivesse permanecido como primeira pessoa, teria confirmado suas próprias teorias de fracasso com o discurso do monstro e desistido do trono. Ele então tira forças não mais de suas ideias, mas da profundidade do mar, aquilo que ele nega profundamente — mas que também ama profundamente — e deixa de se seduzr pela falsa questão de ser ou não digno, — de ser ou não alguém, enfim — mas vai em direção àquilo que precisa fazer — e rapidamente age de forma a impedir o próprio impedimento:

– Para! Tem razão. Sou um impuro de sangue mestiço. Mas não vim aqui porque acho que mereço, pois sei que não mereço. Me entenda.
– Entendo. Nenhum mortal fala comigo desde o Rei Atlan. Quem é você?

Karethen se impressiona com a audição de Aquaman — são raras as pessoas que o ouvem. Isto prova que Aquaman estava realmente ouvindo o mundo oculto — a voz invisível de uma autorização que ele não conhece — e, a esta hora, já não precisa, pois sua audição fora ativada; seus sentidos, dilatados — para ele ser o que é.


Karethen

O monstro Karethen

– Não sou ninguém. Vim porque não tenho escolha. Vim para salvar o meu lar e as pessoas que eu amo. Vim porque o Tridente é a nossa única esperança.


Tridente

O tridente do Rei capturado por Aquaman

Zaratustra dizia que o homem é, antes de mais nada, um rio turvo [4], e é preciso ser um mar para receber este rio sem que suas águas se tornem imundas. Um rio turvo é um rio que perdeu a transparência e a limpidez, é um rio sujo; é exatamente como Arthur se sente por ter sido resultado de uma união híbrida entre deus e mortal. Para se tornar definitivamente o rei, o Aquaman — ou Super-Homem como quis Nietzsche — deve abraçar esta impureza pois até o mais sábio entre vós é um ser indeciso e híbrido entre planta e fantasma [5]. Aquaman, aqui, supera o que o homem Arthur Curry pensou a vida inteira sobre si, como quis Nietzsche: o homem é algo que deve ser superado [6]. Neste momento, ele prova que a parte divina dele não é menor que sua parte humana: talvez o ato de superar a parte humana em nós — a parte pobre, mesquinha e miserável — seja algo que a palavra divino possa nos ensinar, e não ter conseguido chegar a esta superação foi o que levou Atlântida à extinção — e é o que nos leva hoje ao pior de nós.

Num diálogo entre Mera e Aquaman, num momento anterior ao dele tornar-se rei, Aquaman confessa sobre sua identidade, tentando fazê-la desistir da ideia dele ser tornar rei:

– Não sou um líder. Não sou um Rei. Não trabalho, nem me dou bem com ninguém. E não vou deixar-te morrer a tentares transformar-me em algo que não sou.

Ela responde:

– Você acha que não é digno de liderar porque você é de dois mundos diferentes. Mas é exatamente por isso que é digno. Você é a ponte entre a terra e o mar. Consigo ver isso agora. A única pergunta é, você consegue?

Ou seja, a parte divina de Aquaman é exatamente sua parte humana, sua parte pobre, que não tem comida — e por isto é faminta de sair desta condição — sua parte que é justamente a ponte entre sua miserabilidade e a capacidade de superar esta condição:

O homem é uma corda estendida entre o animal e o Além-Homem: uma corda sobre um abismo. […] A grandeza do homem consiste em ser uma ponte e não uma meta; o que se pode amar no homem, é ser ele uma ascensão e um declínio.

Nietzsche, Assim falava Zaratustra, Prólogo, pág. 16

Para mostrar essa união de mundos a seu irmão Orm, Atlanna, a mãe de Aquaman fala a seu irmão:

[…] Você foi mal orientado. Seu pai te ensinou que havia dois mundos, mas ele estava enganado. A terra e o mar são uma coisa só.

Esta fala me faz ver a possibilidade de ser não mais limitada por áreas contrárias de terra e de mar — de não mais tentar impedir — e fracassar –, com uma muralha de areia, o movimento marítimo em mim — mas ser um grão que nele se dissolve: algo minúsculo a ser levado pelas águas que correm dentro de mim — que ora se pendura nas franjas das ondas que explodem — ora se aventura numa gota de chuva que cai nesse mar — duas instâncias vindas uma de cima, outra de baixo — mas ambas feitas da mesma matéria: água corrente a se encontrar num limite do ar: o brilho de seu corpo transparente de nuvem me anuncia que o divino não está longe — mas sim dentro — a me quebrar — como onda — e a me elevar aos céus — como água em ebulição — o tempo todo.



Notas:
[1]Timeu ou da natureza e Crítias ou da Atlântida
[2] Tal como foi dito anteriormente acerca da partilha que ocorreu entre os deuses, eles dividiram toda a terra aqui em porções maiores e acolá em mais pequenas, onde estabeleceram templos e sacrifícios em seu próprio benefício. Deste modo, Posídon, quando lhe coube em sorte a Ilha da Atlântida, estabeleceu aí os filhos que gerou de uma mulher mortal num certo local da ilha. Crítias, 113C
[3] Mas quando a parte divina neles se começou a extinguir, em virtude de ter sido excessivamente misturada com o elemento mortal, passando o carácter humano a dominar, então, incapazes de suportar a sua condição, caíram em desgraça e, aos olhos de quem tem discernimento pareciam desavergonhados, pois haviam destruído os bens mais nobres que advêm da honra. Crítias, 121B
[4] Nietzsche, Assim falava Zaratustra, Vozes de bolso, Prólogo, pág. 15
[5] Nietzsche, Assim falava Zaratustra, Vozes de bolso, Prólogo, pág. 14
[6] Nietzsche, Assim falava Zaratustra, Vozes de bolso, pág. 42

Por um fio

Sobre o filme Entre o bem e o mal (Adam's apple) de Thomas Anders Jensen

CCS, 28 de março de 2019

No filme Adam’s apple, Adam é um neonazista que é incubido de fazer um serviço comunitário numa igreja. Lá, ele encontra o pároco Ivan, e eles estabelecem que sua única tarefa é fazer um bolo de maçã com as maçãs da macieira da Igreja. Desde então, o crescimento das maçãs da árvore passa por todo tipo de impedimento:


Adam's apple, Thomas Anders Jensen

Infestação de corvos


Adam's apple, Thomas Anders Jensen

Infestação de larvas


Adam's apple, Thomas Anders Jensen

Árvore de maçãs sendo atingida por um raio na tempestade

Todo os impedimentos, porém, são negados por Ivan, o pároco da Igreja, que não deixa com que nada lhe tivesse influência negativa, de modo que quase todos da cidade lhe julgassem louco. Nem mesmo o tiro que levou no olho fá-lo desistir — este tiro, inclusive, o salvou de um tumor no cérebro que o mataria em sete dias.


Adam's apple, Thomas Anders Jensen

Ivan após ter saído do hospital



A posição de Ivan frente à vida e certos acontecimentos atingem lentamente a postura descrente de Adam. A bíblia, colocada estrategicamente em seu quarto por Ivan, sempre que caía no chão, lhe mostrava a mesma página, o que lhe chamou atenção:


Adam's apple, Thomas Anders Jensen

Página do livro de Jó da Bíblia



O livro de Jó conta a história de um homem honesto e reto cuja vida foi, através da deliberação de Deus, interferida e tentada por Satanás até que sua tragédia total fosse instaurada; lhe foram tirados saúde, bens e até mesmo paz. Após estar enfermo e em sofrimento, Jó, em versos de aguda poesia questiona sobre sua existência — e consequente miséria:

Por que se dá luz ao homem, cujo caminho é oculto, e a quem Deus o encobriu? (3: 1)
Nunca estive descansado, nem sossegado, nem repousei, mas veio sobre mim a perturbação. Qual é a minha força, para que eu espere? Ou qual é o meu fim, para que prolongue a minha vida? É, porventura, a minha força a força das pedras? Ou é de cobre a minha carne? Está em mim a minha ajuda? Não me desamparou todo auxílio eficaz? (6:11–13)
Há, porventura, iniquidade na minha língua? Ou não poderia o meu paladar dar a entender as minhas misérias? (6:30)

Elifaz, um dos amigos de Jó, ao exortar que ele busque a Deus, diz:
EIS QUE BEM-AVENTURADO É O HOMEM A QUEM DEUS CASTIGA; NÃO DESPREZES, POIS O CASTIGO DO TODO-PODEROSO. (5:17)

Isso me lembra a violência da frase que ouvi ontem num táxi com Rubens — frase essa que, como se me pegasse pela gola da camisa, ergueu-me do fundo de um poço de subjetividade. Paramos em um farol e um homem, sentado em uma cadeira de rodas e sem o olho esquerdo, nos disse:

Eu só não me mato na frente daquele ônibus porque Deus me prometeu uma vitória, e eu não vou morrer enquanto não pegar esta vitória.

Às vezes, em angústia, me questiono no quê realmente devo ter fé e tento me convencer de que as coisas em que acredito são tolas — rapidamente vejo que não há sentido algum nestas construções — afinal, como o homem na cadeira de rodas e como Ivan que se livrou do tumor ao ter levado um tiro no olho, a fé não tem olhos — (enquanto eu ainda não consigo tirar os meus, tento lavá-los; eles permanecem sujos; teimam em estar no mesmo lugar) a fé é um nome para aquilo que me move — sendo um nome, ela é poderosa o suficiente para me mover pois — como um golem — eu não passo de um monte de lama — que, animada pela palavra — preciso dela para tirar a força que não tenho — não importa se nela está um papel em branco ou uma criação de formigas — ambos estão famintos — pois eu sou faminta e carente do meu alimento — roubado — rarefeito — minha alma — camuflada — clama — e eu clamo por conseguir ouvi-la no meio da gritaria das minhas próprias vozes. Assim, a fé não precisa ser em Deus — isto pareceria uma redundância: ela é Deus — ela é o primeiro motor — ela é o movimento — como o de um comboio descarrilhado — e apaixonado — nem meu movimento é movimento — pois ela é o deserto no qual preciso adentrar para procurar água — cada vez como se fosse a primeira — sendo sempre esta vez a derradeira — a água inteira — cujo quebranto me avisa — dela é impossível se apossar — quando vi já dela estou molhada — mesmo que o meu dedo não tenha passado nem sequer da beira — e que — num milagre — esteja insuflada toda de nada!

Tentando entender o que Elifaz diz a Jó — talvez — por estar com o olho no lugar errado — eu chame de castigo algo que seja minha salvação — afinal uma interferência tão violenta da vida num caminho que, ingenuamente, chamo de meu, só pode ser algo divino; este caminho, como disse Jó, é encoberto por Deus — e esta interferência é senão lanterna ardente a abrir meus olhos mancomunados.

Em hebraico, esperança é תִּקְוָה (tiqvah). Um dos seus sentidos originais é o de esticar um cordão ou fio. O livro de Jó, no Antigo Testamento, é onde mais aparece a palavra tiqvah. Sendo a Bíblia um livro essencialmente poético e alegórico, muitos dos versos são repletos de metáforas, e o cordão era uma metáfora muito forte para a esperança. Ou até mesmo o fio no mito de Teseu, que ele deve perseguir a fim de sair do labirinto do minotauro e encontrar Ariadne segurando sua ponta.

Nesta passagem, Jó, desejoso de descer à sepultura, usa a origem da palavra e invoca a figura de tecelão, senhor dos fios dos dias, que, correndo em sua esteira veloz, acabam sem encontrar esperança:

Os meus dias são mais velozes que a lançadeira do tecelão e perecem sem esperança. (7:6)

Mais à frente, diz Jó num diálogo com Deus, falando de sua miséria:

As águas gastam as pedras, as cheias afogam o pó da terra; e tu fazes perecer a esperança do homem. (14:19)

Jó aparenta permanecer, em muitos momentos, desesperançoso. Porém, será que seu discurso revela desesperança ou justamente o fato dele continuar perguntando tais coisas a Deus não revela que ele continua cheio de esperança — caso contrário não estaria obstinadamente tentando conversar com aquele que, além de parecer não lhe ouvir, fá-lo sofrer?

Parece que Jó precisa estar despido de tudo para continuar — como seus perecíveis dias — ou como quando Ivan, no filme, quase morre quando por Adam tenta fazê-lo perder sua fé ao lhe dizer fatos inegáveis que penetravam-no e paralisavam-no, fazendo seus ouvidos sangrarem. Ao tirar tudo de alguém — aparece o que não tem fundamento — e o caminho — o fio — se mostra. Afinal é mais fácil fugir de um fio cortante do que andar sobre ele.

Um fio ou um cordão é também uma extensão extremamente fina de matéria; na matemática, uma reta é a junção de pontos, e estes são, por definição, algo sem dimensão. Portanto, um fio, cujo esqueleto é uma reta, só possui uma dimensão: a do comprimento — sendo, então, infinito. Logo, por ser fino demais, um fio é passível de não ser visto por olhos ansiosos; mudando a percepção — mudando os olhos de lugar — Ivan e o moço do farol não são sem olhos, mas têm mais olhos! — ele é a única coisa a ser vista.

O esqueleto de um fio pode ser uma reta mas ele não é, de forma alguma, rígido; é maleável, e para alguém seguir seu curso, é preciso que haja também maleabilidade nesta jornada — quem se submete a seguir a linha fina e enganosa da esperança não anda em linha reta — mas deve ser permeável para que o caminho se exprima através de quem nele anda — como Teseu ao curvar seus passos — até mesmo julgar-se quase perdido — pelas sinuosidades do labirinto do Minotauro.

Este ponto de inflexão — esta lâmina que é o fio da esperança — enganosa e quase invisível — talvez seja não só do filme Adam’s Apple — mas quiçá da vida na qual tento embarcar a todo custo — aquela num fio paralelo ao meu; talvez seja nesta aproximação que encontrei tanta comoção e tanto sentido.

Esperança ou sonho são também sentidos da palavra quimera. E quimera, na mitologia é também um monstro com um corpo híbrido entre leão, cabra e serpente ou dragão. Como se, ao ser atingido pela lâmina enganosa e invisível da esperança, devo aprender, antes de conversar com Deus a conversar com monstros, fantasmas e demônios. Talvez eles sejam amostras do que seria a fala de Deus.

Adam's apple, Thomas Anders Jensen

Detalhe de As tentações de Santo Antão de Hieronymus Bosch, 1500

A quimera era uma das visões que Santo Antão, um santo egípcio do século 3, tinha quando renunciou de todos os seus bens e se isolou no deserto a fim de ter uma vida ascética. Durante anos ele foi atormentado por visões demoníacas e perigosas, metamorfoseadas de serpentes, leões, mulheres sedutoras que vinham atacá-lo para desviá-lo de seus propósitos, mas ele permanecia — não exatamente firme, mas louco — em sua decisão. Em As tentações de Santo Antão, Flaubert descreve sua saída do delírio através de um olhar esperançoso num diálogo entre ele e o Diabo:

[…] O diabo estendeu progressivamente suas longas asas, que agora encobrem o espaço
Antão:
já não vê mais nada. Desfalece.
Um frio horrível gela todo o meu ser até o fundo da alma. Isto excede o alcance da dor! É como que uma morte mais profunda do que a morte. Estou rolando na imensidão das trevas. Elas penetram em mim. Minha consciência estoura sob esta dilatação do nada!
Diabo:
Mas as coisas só te chegam por intermédio de teu espírito. Tal como um espelho côncavo, ele te deforma os objetos, e todos os meios te faltam para verificar a exatidão deles. […] Mas tens a certeza de ver? Terás mesmo a certeza de viver? Talvez não haja nada! O diabo pegou Antão, o segurando com os braços estendidos, olhos fixos e goela aberta, prestes a devorá-lo. É a mim que deves adorar! E maldizer o fantasma a que chamas Deus!
Antão ergue os olhos num derradeiro movimento de esperança.
O diabo o abandona.

Flaubert, As tentações de Santo Antão, Iluminuras, pág. 147

Tendo pulado uma vez — me lembro como se fosse hoje — porque ainda é hoje — ainda preciso pular mil hojes — para voltar ao início que esqueci — ao início que cresci quando desisti de seguir — quando Rubens me perguntou um dia porque eu estava ali — perto dele — eu respondi, com algo que acho ser uma das coisas mais bonitas já escritas em língua portuguesa — tentando dar ao choro uma voz de canto — tentando dar à música uma voz que não fosse mais minha — mas que me levantasse de minha constante sepultura:

Sim, ME LEVA PARA SEMPRE Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Ai, diz quantos desastres tem na minha mão

Por um triz — por um fio — prometo que nada esperarei — talvez eu espere demais — esperar parece vir de esperança mas acho que não é; este esperar vem da lógica — enquanto a esperança é mesmo fora de cogitação — ela vem de fora — do sem fundo — do ainda sem mundo — é estrangeira — e fictícia — sem razão para existir — mas é absurdamente só o que pode existir — e me cobrir à noite do frio que esquenta a arrogância de não querer existir — mas sustenta a força de insistir na formiga; hoje eu não quero seguir o fio da etimologia — mas andar sobre o fio que balança e ameaça a me tirar o equilíbrio — que me convida a me retirar para deixar o mínimo que se esconde no buraco por onde sopra a ventania da corrente marítima da qual fugi ao me ilhar de mim.

Morte de subterfúgios

Sobre o filme Eutanásia de Teemu Nikki

CCS, Aula de segunda, 22 abril de 2019

Eutanásia, Teemu Nikki

Ao descobrir o destino, o gênio revela sua potência de força original, e em seguida ele revela, por sua vez, sua impotência. Para o espírito imediato que o gênio sempre é, o destino é o limite. […] O gênio se angustia numa hora diferente dos homens comuns. Esses só descobrem o perigo no instante do perigo, até então se sentem seguros, é uma vez passado o perigo estão seguros novamente. O gênio está mais forte que nunca no instante do perigo, nesse momento tremendo em que ele precisa ter uma conversa com aquele grande amigo desconhecido que é o destino. Talvez a maior de suas angústias se de no momento posterior, porque a impaciência da certeza cresce sempre numa proporção inversa à certeza da distância, já que sempre há mais a perder à proporção que se está mais próximo de vencer, mas também porque a lógica do destino não tem lógica nenhuma.

Søren Kierkegaard, O conceito de angústia, pág. 107–110

Penetrar no filme Eutanásia parece ser algo precedido pelo tropeço: o filme promete que, ao passo que você caminhe em suas entrelinhas, não irá caminhar tranquilamente e terá que se acostumar com o estranho: a tropeçar continuamente em algo opaco e maior que suas interpretações — apequenadas perto do que que realmente Eutanásia quer dizer. Assim, penetrar neste filme parece deparar-se com o fato de que é impossível penetrar nele — caso você não seja não só penetrado por ele primeiro — mas esteja estilhaçado e consequentemente esteja preparado a quebrar ao menos um pouco da forma de suas ideias.


Eutanásia, Teemu Nikki

Isso não quer dizer que Eutanásia seja um daqueles filmes que sempre têm algo novo no enredo, que nos fazem chegar ao fim do filme vencidos pelo cansaço ao nos apresentar sempre alguma peripécia mirabolante e inabitual. Estas soluções, por serem inúmeras, só o são assim para encerrarem-se umas nas outras a fim de tentarem acabar com o tédio do qual elas mesmo são resultado. Este tipo de artifício usado para resolver uma narrativa ou para deixá-la compreensível é chamado deus ex-machina. Este termo surgiu na Grécia e era literalmente “deus surgido da máquina”, que era quando surgia um deus no meio de uma peça de teatro pronto para resolver as pontas soltas da peça. Porém, sua aparição, por ser externa à peça, era artificial.

Em Eutanásia, isto não acontece. Por exemplo, não há uma explicação do porquê Veijo faz suas ações nem do que ele é. Ele seria um justiceiro? um mestre? um louco? Apesar dele continuar sendo como todos no filme, um ser humano, suas ações sobre-humanas não são explicadas por alguma razão exótica. Nenhuma categoria parece dar conta de suas ações que, ao se colocarem num lugar radical de não serem localizadas, paradoxalmente, se afirmam neste lugar suspenso, e a explicação delas se tornam elas mesmas — qualquer discurso paralelo a elas não faria sentido: sua obra está em seu corpo; assim como Kafka ou Mallarmé quiseram, em vão, queimar sua obra, Veijo quis, em vão, queimar seu corpo.

Fiquei muito tempo tentando achar cenas no fome que provassem o que estou tentando dizer; sinto, porém, que não tenho aptidão para tirar uma cena sem tirá-la de seu contexto. É como se cada parte do filme dependesse de sua totalidade.


Eutanásia, Teemu Nikki

As resoluções apresentadas no enredo não são resoluções pois não “relaxam” a trama, tampouco querem se satisfazer como quem come a sobremesa no domingo e deita no sofá; são reconciliações que, por buscarem conservar o mistério e não a solução deste, permanecem abertas ao conflito.

Na verdade, há uma palavra em alemão que acredito mostrar esta situação: Aufheben ou Aufhebung. Ela não tem equivalente no português, mas é traduzida como suprassunção. Seu significado engloba ao mesmo tempo noções contraditórias, como elevar e resolver; aumentar e aniquilar; suspender e conservar. É como se ela pudesse ser uma mistura da fórmula tese — antítese — síntese; não à toa, esta palavra é usada por Hegel. Estou pegando-a emprestado aqui pois ela parece mostrar o mesmo que o filme Eutanásia: Veijo só resolve seus conflitos ao elevar a dificuldade a que impõe a si mesmo. Como não entendemos a complexidade desta dialética, dizemos que ele está em suspensão, o que também permite dizer que ele está próximo de algo que não se insere em nenhum nome: o imediato [1], como quis Hölderlin, e sua violência. Suas ações, que não se utilizam de um manual de regras, tampouco são aleatórias, mas são medidas pela imediatidade — além de medidas, são por ela rigorosamente determinadas. A possibilidade da liberdade não consiste em poder escolher o bem ou o mal. Um tal disparate não prossegue nem das Escrituras nem do pensamento [2]. Mas sua possibilidade consiste numa liberdade tolhida, enredada, obrigada a ser cumprida; a levar a cabo o ser-capaz-de, numa desgraçada tarefa de aceitar a morte apenas como morte de subterfúgios e, assim, trazer a escuridão da noite para esturricar o rosto num pico de sol de meio dia.


Eutanásia, Teemu Nikki

Talvez a noção que melhor possa encostar nesta ação-discurso seja o de uma fé indefectível em seus sentidos — ou melhor, em sentidos que não seja exatamente seus (como os cinco que todos têm: paladar, olfato, visão, audição e tato), mas num sentido exterior que ele rouba — confia — impregna a seu próprio corpo, o que seria equivalente a dizer que a velocidade com que o vento sopra ou o olhar entristecido de um cachorro, por exemplo, é um sentido a lhe guiar — e por ser tão distante a nós, nos faz parecer “sem sentido” — ou “estranho” — estranho aqui no sentido literal da palavra como algo não familiar. Este acesso a novos sentidos lhe abrem portas de acesso ao espírito — ou o contrário — e sua angústia, aqui não é mais a de não-poder-fazer, mas a de poder: a de uma imortalidade em vida; quanto mais a porta se abre ao espírito — acordado de seu sono –, maior o acesso à angústia.


Eutanásia, Teemu Nikki

Esta extrapolação de limites nos leva à cena final, que nos mostra aquilo de que fugimos a todo custo: a impossibilidade de se limitar por qualquer impossibilidade. Veijo não consegue se livrar de sua vida nem mesmo ao tentar dar cabo a ela — sua tentativa de suicídio, por mais estranho que possa parecer, conceitualmente não se identifica com aquilo que representa um suicídio — não é uma fuga de sua vida — mas é um adentramento nela por outra via — a extrema [3] — a da entrega total; não é um afogamento pela culpa, mas sim a rara posição de quem não leva mais culpa alguma — supostamente cometendo um crime, revela-se não ser culpado, mas pelo contrário: inocente [4], mesmo que tenha chegado perto do núcleo impossível de alguém que fez o que tinha que fazer nesta vida e já está na sobrevida — no além — e é presenteado — ou amaldiçoado — pela contradição de ter de viver o além na terra — e pelo susto da encardida verdade de que a transcendência é, na verdade, imanente.


Eutanásia, Teemu Nikki

Notas:
[1] O imediato é o suspenso […] a quem ocorreria a ideia de permanecer no imediato se este é abolido exatamente no mesmo instante em que o nomeiam, assim como um sonâmbulo desperta no mesmo instante em que seu nome é mencionado? Kierkegaard, O conceito de angústia, pág. 13
[2] Kierkegaard, O conceito de angústia, pág. 54
[3] Com uma boa dose de humor, o nome da “empresa” de Veijo é: Reparos e soluções extremas.
[4] Neste estado há paz e repouso, mas ao mesmo tempo há algo de diferente que não é discórdia e luta; pois não há nada contra o que lutar. Mas o que há, então? Nada. Mas nada, que efeito tem? Faz nascer angústia. Este é o segredo profundo da inocência, que ela ao mesmo tempo é angústia. Sonhando, o espírito projeta sua própria realidade efetiva, mas esta realidade nada é, mas este nada a inocência vê continuamente fora dela. A angústia é uma qualificação do espírito que sonha. O conceito de angústia, pág. 45

Quando pedir se torna agradecer

Sobre o filme Blow up de Michelangelo Antonioni

CCS, Aula de segunda, 11 setembro 2017

Blow Up, Michelangelo Antonioni

Um fotógrafo que precisa de uma máquina não apenas para fotografar - mas para respirar. Para se afirmar enquanto a pessoa que ele queria ser ou até mesmo que ele era - mas não era ainda – aquela que ele se impedia de ser. Como se a cada clique que ele desse, ele suplicasse algo para a vida - mais vida, talvez – menos do que ele queria – ou mais do que ele poderia ter - uma vida que ele não tinha - uma coleção dela em miniatura depositada num negativo. Cada clique era um pedido de ajuda - uma manifestação da sua tão presente carência - da ausência de tudo que ele aspirava ser.

O olho do fotógrafo era emprestado da câmera fotográfica - ela via e não ele - ele via por procuração - ele via apenas através de sua lente. Após sua intensa investigação em fotografias que testemunharam um assassinato, ele profere as confusas e sequentes falas: acabei de ver um assassinato e, logo após ser questionado sobre o que viu, eu não vi nada. Sua aparente contraditoriedade mostra, também, esse empréstimo tão sério - esse acordo tácito mediante fotógrafo e máquina fotográfica.




Me parece que quem pede, quem faz a lição de casa, quem arregaça as mangas e põe a mão na massa, de alguma forma, ganha algo - não exatamente aquilo que pede - nem do jeito que imaginou - nem quando - mas algo decididamente vem.

Dessa forma, todos os cliques em suas máquinas fotográficas, por serem genuínos pedidos, pareciam ser, essencialmente, tudo que ele podia proferir naqueles momentos; esses momentos eram momentos em que só se podia ser alguém cujas ações se resumem num pedido: momentos de uma vida comum – que não quer ser comum - que merecem nada menos do que pedidos para que se transformem nalgo fora do comum. Os cliques eram, então, displays para esses pedidos que, camuflados em máquinas fotográficas, ferramentas, salas escuras - técnica, enfim - eram, em suma, toda e qualquer fala do jovem fotógrafo! A necessidade de fala, mesmo que sem conteúdo, parecia ser a coisa central – ela o educava, inclusive – ela o vivificava: ele parecia o ser humano mais atento dentre pessoas tão alheias a tudo, tanto que foi capaz de enxergar coisas minúsculas porém poderosas – a técnica passou a ser a vida a ser vivida; mesmo que ele tivesse ares arrogantes e depois, após perder muitas coisas, perdesse também um pouco disso, sua fala não mudou: seu pedido não mudou, muito embora sua forma de pedir tenha mudado – tenha ficado, enfim, humilde.



Privado de muitas coisas – inclusive de esperanças e suas fotos reveladoras - entregue totalmente ao pertencimento dessa privação - algo que ele não conhecia, talvez - ele se depara com palhaços a jogarem uma bola invisível. Estes fazem a ele um pedido: que ele jogue também a bola invisível. Ele, após muito hesitar, decide ignorar sua insistente dúvida - e também sua máquina - decide deixar de depender dos tão batidos verbos acreditar ou duvidar de algo, passando a simplesmente fazer esse algo - e joga a bola invisível - parece então que seu pedido chegou - ou deu um sinal de que vai chegar - de que ele pode continuar a pedir - aí então, no fim do filme parece haver o começo de algo - quem sabe ele entende toda a especificidade da qual ele tanto correu atrás - ele começa então a fotografar sem usar uma câmera fotográfica - depois que ele joga a bola - que não deixou de ser invisível -, passa-se a ouvir o som ritmado das batidas nas raquetes - também invisíveis.




Há mais uma coisa que preciso dizer – talvez a mais importante – sem a qual, eu não poderia – definitivamente – ver o que vi no filme de hoje: a ação de um pedido, ou as diferentes formas que um pedido pode ter; no que a técnica pode se transformar – nas também diferentes formas que ela pode vir a ter. Sem essa coisa, sem esse amor que sinto – esse amor que aprendi assumir ter – sem o sentido que me sinto obrigada a criar, não só para a vida,mas para mim, que, pobre que sou, ainda não sei ter muitos sentidos diferentes dos que comumente sinto -, sem Rubens na minha vida, sem a rotina apertada, sem os discípulos, eu nunca aprenderia a conjugar o verbo pedir e, mesmo sem ainda saber, a ver as tão coloridas formas que essa conjugação pode vir a ter. Obrigada por me fazer saber que posso transformar meus singulares dias nessa ação – e que ela, que em outros contextos poderia ser tão diversa, pode, aqui, se igualar a outra – a de agradecer.

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