O quarto furtivo

Homenagem a Mallarmé

CCS, 22 de março de 2018

Pendente em sonhos como num dorso de tigre, vejo sair pela fresta de seus dentes uma mosca que se equilibra em seu minúsculo centro voador e leva consigo todo ar voante a trepidar sob seu corpo pululante. O que é uma palavra? É a figuração da vibração de suas asas dentro do meu pulmão. Sendo assim, como posso dizer a palavra voar sem que isso seja, para mim, apenas uma estimulação subjetiva, dado que eu não conheço inteiramente a sensação de voar? Meu não conhecimento sobre ela, porém, faz exatamente com que ela voe dentro de mim e, através da subjetividade dela, eu possa então, na magnitude da minha ignorância de voar, que agora me favorece, enfim dizê-la. Ou seja, não é o conhecimento ou desconhecimento de uma palavra que me permite usá-la — mas a permissão de que suas asas voadoras batam sobre meus estímulos nervosos, entrelaçando o que eu sei com o que não sei, fazendo com que a trajetória de seu voo seja o de uma montanha russa dentro do quarto vazio que sou quando tudo finalmente se cala e deixa que ela se diga. Para ela, não importa se ela não se olhar no espelho antes de sair de seu casulo — importa que talvez existam muitos casulos para ela sair e entrar em outros, seja numa paz de rinoceronte seja numa pressa de menina nua que procura suas roupas jogadas no chão quando é pega no flagra pelo frio que entra pela janela esquecida aberta.

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Um batalhão de moscas que se esqueceu de onde veio entrou no quarto vazio das palavras, que acabaram de sair de seu quarto coberto por cortinas que forravam não só as janelas mas também o chão. O batalhão veio com um propósito: o de mentir em rebanho, pois sozinhas elas não conseguem formar mentiras sólidas o suficiente. Quando uma quer dizer que ama a outra, vem uma terceira e a puxa pela mão advertindo que, para dizer aquilo, ela deve dizer com todo o esquecimento que ela pode atingir para que o grau de mentira e de verdade esteja completamente descolorido e liquefeito; ela esquece então de dizer o que ia dizer até que é engolida pela palavra que tinha acabado de sair de seu quarto e que consegue ser mais esvoaçante do que um batalhão de moscas pretende ser.

No quarto, não há nada debaixo das cortinas que cobrem o chão, o que faria com que qualquer pessoa que entrasse lá afundaria, pois se enganaria pela imagem marítima que se espalha por cima do nada horizontal. É um quarto onde leis, subordinações ou quaisquer tipo de rubricação não podem ser edificadas. Pela atmosfera do quarto, é bafejada sempre a frieza das janelas octogonais para sempre esquecidas abertas, cujo vento trás resíduos que se afundam sobre o nada engolidor; seu peso faz com que as cortinas aprofundem e lesionem fatalmente um pouco mais a alma — o chão inexistente — do quarto vernacular.

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Orifício

I

Ao chegar em casa, notei que ele havia saído de férias sem mim, enquanto eu continuara na minha rotina de trabalhador, tão inconsciente de meus infortúnios que minhas reclamações não passavam de dispensáveis tentativas de preencher o tempo que, inclusive, eu não possuía. Ele não deu sinal sobre sua ida mas a atmosfera delicadamente perturbada do quarto ao fim do dia denunciava sua súbita saída — xícara suja com sachê de chá pendurado, chinelos no lugar dos sapatos, cama mal feita — ele deve ter saído com pressa — talvez não saíra com o planejamento de sair. A angústia causada por este abandono repentino me questionava sobre o grau de publicidade que daria a ela — ela é espaçosa e gostaria de tomar conta do lugar da sua ausência — na verdade, de qualquer lugar — e acredito que o melhor a fazer seria dar a ela algum lugar, mesmo que aparente, de destaque — para que ela não se amoite no rastro do ser que saiu da minha casa e tente me impor uma falsa máscara de discrição.

II

Todos os dias, preparava-me para seu retorno, que eu não sabia quando se daria. Se ele saiu tão rápido, presumo que voltaria rápido. Assim que elaboro esta observação vejo que ela não conserva nenhum sentido; prendo-me a ela para não me confessar inteiramente perdido. De qualquer modo, arrumo a casa em intervalos cada vez menores e anseio por sua chegada ao olhar inúmeras vezes pela janela.

Num desses momentos de suspensão em que ficava na janela, perguntei-me, após ter sido tomado por um vento indigno de prazer, se esses vestígios eram indício da saída dele ou da minha própria, naquela manhã. Ao ser atingido por esta pergunta, comecei a andar sem destino e atingi, no corredor, um estado em que meus pensamentos se escorregaram de mim após se depararem com um choque de diferentes temperaturas de ventos vindouros de opostas direções a se cruzarem em minha janela — que não se afastou de mim, ao passo que me afastei dela –; do lado esquerdo quente e do lado direito, gelado. Estando ao pé do fogo, não podia me congelar; esta estranha e súbita neutralidade — ou absoluta e neutra estranheza — fez com que eu não cedesse às vazias e cômodas curiosidades por diferentes estados. Percebi também que não obteria respostas a perguntas que se recusavam a atravessar a vertigem que me atravessara, então não me restou mais nada a não ser me entregar a este choque neutro que quase me drenou toda a vida — como uma corda laçada ao meu pescoço, seu laço exigia que eu não tivesse nenhum movimento brusco, caso contrário sua ameaça de drená-la completamente seria efetivada.

III

Hoje, mesmo estando sozinho — como sempre estive: ninguém fora realmente embora — comemoro diariamente sua partida, sua eterna vinda, sua, na verdade, nula existência; somado a tudo isso, comemoro a probabilidade de, após minha casa ter se dilatado e nela morarem duas pessoas, eu e ele estarmos unidos a um corpo. Agora que o sol se pôs para sempre aturdindo o dia como pertencente à escura noite, sei que posso servir-me de sua ausência como um trampolim que me leva ao seu encontro; a solidão resultante desse encontro sabe sobre aquilo que ignoro e bastava que eu me unisse a ela para que não o desespero de não saber, mas sim de saber aquilo que esqueci, permita-me dormir a sós enquanto acordo.

A paz — esta talvez seja uma palavra muito grandiosa para a minúscula percepção de que todas as minhas rachaduras são, quando vistas de cima, desenhos de caminhos por onde o homem que em mim é deve caminhar — que provém deste encontro faz com que a necessidade de buscar qualquer tipo de paz seja, enfim, liberada — liberando-me da recusa de te buscar — e não assustar-me ao me encontrar.

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