Pulando carnaval, ou melhor, pulando de um estado a outro

1 de março de 2019

Carta a RES

Rubens, eu não sei dizer se este [1], como outros textos seus, me levam ao surto ou me tiram dele; me levam de um estado a outro — talvez esse estado seja de uma estranheza tal que possa ser, quem sabe, mais lúcido do que aquele em que me encontro todos os dias — e tamanha seja essa estranheza que quebra todas as portas dentro de mim que seus estilhaços saem na forma de lágrimas — porque não conseguem sair de outro jeito.

Mas eu confesso que eu não suporto estar longe deste estado mesmo que ele doa — eu não quero o falatório das festas — eu não quero estar bêbada no carnaval — pois assim já estou sempre — sempre distante — sempre diletante demais — profissional demais — mas nunca vazia o suficiente para saber ver e limpar os vidros quebrados; eu não quero sumir na multidão — já sumi mesmo sem multidão; eu sei que todas as flechas dizem isso — mas o que vive em mim não é idiota — e não é igual a todos na multidão — mesmo que esteja perdido, ele, inclusive não é igual a mim — e ele me obriga a dizer que sou serva dele — ele que está preso em mim.

[1] Texto O inominável de RES de 2012

Um texto paralelo ao texto Morte de subterfúgios: sobre o filme Eutanásia

Um texto paralelo: Confissão ou justificativa — última — de uma vez por todas — a ninguém — a mim — antes de mais nada

CCS, 22 de abril de 2019

Já senti imensa vergonha por escrever meus textos e pela cisão que eles podem representar; Já pedi desculpas; Já quis nunca mais escrever; Já pensei que é tudo mentira e besteira, que eles não passam de uma carência incorrigível, medo da solidão e picuinha; Já me senti culpada por achar que estou fazendo errado — não de modo errado, mas que estou tocando nO Errado, no que não pode –; já senti que não devia fazer mais, inclusive por sentir extremo prazer nisto; Já fui atacada pela sensação de que eles não pertencem a mim, de que estão distantes de mim, de que sou uma farsante, — de que a radicalidade que eles proferem não faz parte da minha vida. Hoje vejo que talvez seja radical assumir essa diferença brutal, essa incapacidade de ser como eu gostaria de ser, essa falta de transparência, esse impasse eterno, esse eterno jogo de esconde-esconde entre burrice e inteligência, entre melhor e pior — e nunca saber qual é meu papel e porquê não consigo controlá-lo, ou, enfim, ser meu próprio diretor — neste violento enxame de personagens brigando para chegar à colmeia — ao palco de mim em que meu corpo — indirigível — se transforma.

Diante dos últimos acontecimentos —  eu assumo a cisão — e assumo que, ao escrever, não quero fingir que não há falha — mas talvez esse seja meu modo de adentrar a falha, mesmo que isto leve muitos anos. O mundo pode dizer que escrever não tem sentido nenhum, mas minha ânsia intermitente em viver me grita que o sentido está naquilo que o próprio sentido encontrar lugar — e muitas vezes isto se dá escrevendo, não por ser isto a única coisa, mas talvez porque eu seja limitada demais para ver em todas as outras coisas. Para muitas pessoas, isto pode parecer silencioso e até confortável demais — para mim o barulho das palavras é bem alto — mas confesso que, procurando por definições delas em tantos dicionários, eu realmente não sei mais o que elas são nem o que querem dizer; mesmo que pareça um pecado proferir coisas que realmente não vivo na pele, este parece um pecado menos grave do que não proferi-las de nenhum jeito — e já que não posso escapar do pecado, que meu pecado então seja o de tentar dizer — e que um dia isso se engalfinhe no pecado maior que é o de realmente dizer. Seja o que forem [as palavras], que seja do jeito que for para que seja humanamente possível suportar o tempo que leva — para que a ferida se abra — e me abra — aos poucos — de modo que eu não desista da vida que eu escondo — ainda — dentro de mim.

Quando consigo ter a força de perceber que, na verdade, ao conhecer Rubens e seu iminente perigo, eu aceitei abrigar minha vida fora de mim, vejo o quão protegida ela está fora do alcance de minhas mãos através do símbolo que é o Atelier — e, assim, eu não estou mais no poder de fazer o que eu sei fazer bem: destruí-la. Gostaria de poder perceber isso mais vezes — mas mesmo que ainda seja pouco, estes momentos são o que me empurram — neles, a culpa de qualquer coisa se esvai e me sinto aliviada e grata — e, ao perceber-me desabrigada, me sinto em casa.

Obrigada Rubens por devolver às palavras seu sentido verdadeiro; ao devolver à minha grande habilidade de perder, a habilidade de ganhar — e assim, tentar dar o amor que nunca tenho.

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