Warburg e a histeria

 

Relatório sobre a aula de segunda de 22 de agosto de 2018 de Res

 

Forma movediça e intermitência

 

Ritmo é uma palavra amplamente localizada no comportamento humano - individual ou coletivo - e por isso, é alvo de uma generalização, o que pode ser um dos fatores que fez com que seu sentido original se diluísse. Benveniste, linguista francês do século XX, estudou e questionou a origem das palavras ritmo (ρυθμóς) e fluir, palavras ligadas etimológica e morfologicamente, mas não sintaticamente. Ritmo, em grego, deriva de fluir. Aprendemos que tanto fluir quanto ritmo têm a ver com o movimento das ondas do mar. Porém, diz ele que a ligação semântica entre os dois termos é impossível: não se pode dizer que as ondas do mar fluem - afinal, dizemos que as ondas quebram e não que fluem – fluir é o que acontece com um riacho, por exemplo, e este, por sua vez, não apresenta ritmo algum.

A partir destas contradições, Benveniste conclui que ritmo não significa aquilo que entende-se por ritmo e que sua concepção atual é pura invenção. A partir de análises da poesia lírica e trágica antiga, Benveniste faz um longo estudo da recorrência da palavra ritmo, chegando à noção de que ritmo, segundo os contextos onde aparece, designa a forma no instante em que é assumida por aquilo que é movediço, móvel, fluido, a forma daquilo que não tem consistência orgânica.

 

O movimento das ondas do mar, então, apresenta duas características:

Possuem interrupções e intervalos desiguais → intermitente;

Movediças, não têm consistência orgânica → não tem forma fixa;

 

Além dessas duas acepções mais aparentes, há a conclusiva: Benveniste conclui que a aproximação mais correta de ritmo é a de forma; não a forma de algo fixo e sólido, mas como a forma de um corpo que dança, submetido às leis de um movimento que não aquele do seu controle: forma no instante em que é assumida por aquilo que é movediço.

 

Ora, a intermitência e o fato de não ter forma fixa das ondas do mar têm profunda relação com o que Warburg caracterizava como sobreviventes: forças que se apoderam dos objetos, metamorfoseadas durante a história de seus renascimentos – em objetos de épocas e contextos diferentes, como por exemplo Laocoonte e rituais de tribos indígenas americanas. Esta aproximação parece ser possibilitada pela capacidade de metamorfose das forças presente em suas formas – como se sua aparência fosse um coágulo do sangue pulsante e movente deste algo que não apenas se move na história – mas que a move – estacionando-se intermitentemente numa forma plástica.

 

Sobrevivência e histeria

 

Charcot lançou a hipótese de que a causa da histeria seria uma ”lesão dinâmica” cerebral causada por algum trauma. A partir daí, Freud passou a desenvolver a noção de trauma e a observar sua recorrência num ataque histérico, sendo que essa lembrança ou está inteiramente ausente da recordação do paciente, quando este se encontra em seu estado normal, ou está presente apenas em forma rudimentar, condensada. Aquilo que causa a um ataque histérico parece ter dupla identidade: algo que está morto – soterrado – e algo que é tão vivo que é capaz de gerar um ataque – um bicho à espreita que, aparentemente morto, vigia-me sempre que me esqueço seu nome e que sobrevive no caos de nomes que dou a ele:

 

[...] o que sobrevive numa cultura é o mais recalcado, o mais obscuro, o mais longínquo e mais tenaz dessa cultura. O mais morto, em certo sentido, por ser o mais enterrado e o mais fantasmático; e igualmente, o mais vivo, por ser o mais móvel, o mais próximo, o mais pulsional. É essa, de fato, a estranha dialética da Naschleben.

 

O ataque histérico parece ser uma forma ilógica de testemunhar sobre o perigo vivido no trauma – evento que não necessariamente é único e grandioso, mas que pode ser um conjunto de inúmeros eventos insignificantes –, noção essa a da palavra superstes, estudada tanto por Warburg quanto por Benveniste em O vocabulário das instituições indo europeias. Uma das acepções de superstes é:

Quem vence um perigo e sobrevive a ele.

 

Este não é o único emprego de superstes; como o prefixo super está ligado com a expressão acima de e com a expressão além de, pode-se dizer que superstes é Quem vence um perigo e sobrevive para além dele.

Neste para além tem-se implicada a noção de testemunha; é como se, nestas duas palavras, estivesse embutida uma ação não necessária à mera sobrevivência, mas que se torna, de alguma forma, necessária a ela; num funcionamento estranho, como se testemunhar sobre a sobrevivência fosse algo capaz de ajudar com que a própria sobrevivência se dê.

Concebo ser como um ideal – esquecendo-me, além daquilo que sou, aquilo que não sou – como não conheço o que isso é, a chancela do conhecimento o expulsa – já que ele não sabe dizer seu nome. Como ser é ideal, torna-se impossível – ao ser, contraponho o ter – e consequentemente vejo que tudo o que tenho hoje sou eu mesma – ao mesmo tempo que não sou – pois permaneço indisponível para mim – como uma ferramenta quebrada em minha oficina de invenções alucinatórias – arruinada por intensas atividades que nela são feitas – e que são justamente alucinatórias por moverem-se para todo lugar sem ferramentas que as façam abrir a porta – impedindo-as de permanecer no espaço central – aquele no qual há um corte – feito pelo abuso que fiz da linguagem de mim – precisa ser reparado – e também ser esgarçado por cada parcela de meu corpo que se solta ao adentrar seu corte – explorado por toda veia saltada que, a cada vez que salta, arranca uma erva daninha de sua ruína – que hoje é inabitável.

 

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