A Vernacular

                                     

                                    A Vernacular é uma micro editora dirigida por CCS e localizada no Atelier do Centro, atelier de arte comandado pelo artista Rubens Espírito Santo. 

                                    Regularmente, a Vernacular faz pequenas tiragens de publicações independentes no Atelier do Centro. As publicações da Vernacular são feitas por CCS e estão sob orientação de Rubens Espírito Santo. 

                                    Vernacular
                                    Formigas famintas em fila - CCS
                                    Formigas famintas em fila
                                    CCS, 2019
                                    Extrações 3: Méthodo - CCS
                                    Revista Extrações 3
                                    CCS, 2019
                                    Luva de cimento - CCS + Despacho
                                    Luva de cimento
                                    CCS + Despacho, 2018
                                    O cavalo azul - CCS
                                    O cavalo azul e outros poemas
                                    CCS, 2018
                                    Box vermelho - CCS
                                    Caixa vermelha
                                    CCS, 2018
                                    Extrações 1 - CCS
                                    Revista Extrações 1
                                    CCS, 2018
                                    Extrações 2 - CCS
                                    Revista Extrações 2
                                    CCS, 2018
                                    10 textos sobre a Deontologia da Língua Portuguesa - RES
                                    10 textos sobre a Deontologia da Língua Portuguesa
                                    RES, 2018
                                    Zine: O Morro dos ventos uivantes e a Histeria
                                    Zine: O Morro dos ventos uivantes e a Histeria
                                    CCS, 2018
                                    Zine: Um texto clandestino: Residência CCS - Luca Parise
                                    Zine: Um texto clandestino: Residência CCS - Luca Parise
                                    CCS, 2018
                                    Zine: Paredes móveis - Definição poética sobre o despacho
                                    Zine: Paredes móveis - Definição poética sobre o despacho
                                    CCS, 2018
                                    Zine: Warburg e a Histeria
                                    Zine: Warburg e a Histeria
                                    CCS, 2018
                                    Zine: O copo que acabou de cair da tua mão: Sobre o poema Galinheiro de CCS
                                    Zine: O copo que acabou de cair da tua mão: Sobre o poema Galinheiro de CCS
                                    Anônimo, 2018
                                    Zine: Marquês de Sade
                                    Zine: Marquês de Sade
                                    CCS, 2018
                                    Contos de Calibã - CCS
                                    Contos de Calibã
                                    CCS, 2017
                                    Textos - RES
                                    Textos
                                    RES, 2017
                                    Sobre quatro palavras - CCS
                                    Sobre quatro palavras: uma palavra por semana
                                    CCS, 2017
                                    Sobre quatro poemas e uma fábula - CCS
                                    Sobre quatro poemas e uma fábula
                                    CCS, 2017
                                    A incompreensibilidade da compreensão - CCS
                                    A incompreensibilidade da compreensão
                                    CCS, 2017
                                    Sobre o romantismo sem romantismo - CCS
                                    Sobre o romantismo sem romantismo
                                    CCS, 2017
                                    Poemas- CCS
                                    Poemas
                                    CCS, 2017
                                    Textos coligidos sobre estética - Anna Israel
                                    Textos coligidos sobre estética
                                    Anna Israel, 2017
                                    Escólios de RES: Revista de crítica genética - CCS e Mayra Reis
                                    Escólios de RES: Revista de crítica genética
                                    CCS e Mayra Reis, 2016

                                    Um texto clandestino: exilados em miniatura por uma noite

                                    Sobre a residência CCS - Luca Parise
                                    CCS, 10 de agosto de 2018

                                    Mas o que você diria de um suicídio anterior, um suicídio que nos
                                    fizesse regressar, mas para o outro lado da existência, e não para o lado da morte?
                                    Só isso teria valor pra mim, não sinto apetite pela morte, sinto
                                    apetite de não ser, de nunca ter caído nesse reduto de imbecilidades,
                                    de abdicações, de renúncias e de encontros obtusos.


                                    Artaud, citado por Enrique Vila Matas em Breve História da Literatura Portátil, pág. 42

                                    Quando você olha para o fim de uma rua que não tem fim, sua tenacidade e força dançam no topo de uma escada que seus olhos percorrem ansiosos - e um leão de pelúcia te dá a mão quando vê que seus olhos quase subiram alto demais.
                                    No meio de nossos silêncios, há uma linha que os entrelaça com falas - ela não tenta mais passar pela garganta e sufocá-la - mas sai pela sua janela carregando em sua ponta balões coloridos - fazendo escultura no céu.

                                    Você desenha plantas de projetos - mas as plantas da sua Máquina de desenho desenham também em você os projetos delas - elas trilham caminhos em seu espírito que você trilha nas ruas da cidade, te autorizando a adentrar edifícios singulares cujas portas só abrem de madrugada - e você não se dá conta que entra neles - talvez porque esteja dormindo quando se aproxima da entrada principal. Como elas, você trabalha não somente quando está compondo - mas quando atinge incertas decomposições.

                                    As sensações mínimas têm compartimentos secretos e inabitáveis - sua fugacidade mantem intacta uma independência das associações turvas que nossa mania utilitária de se relacionar com os dias costuma fazer - eu me encontrei com várias delas embaixo do pires das suas xícaras - ali, fui atravessada pela chuva de chá preto que você derramou sobre minha razão - acordando em mim um morador errante - que não se importa de pagar sua passagem - porque você pagou a minha - para um exílio - permanente de mim.

                                    Ao dormirmos, de repente, éramos páginas de um livro a serem viradas lentamente pelos dedos que tecem a noite - conversávamos em silêncio - virávamos miniaturas de nós - a melhor forma que um exilado tem de possuir coisas - distantes de nós, possuíamos nada - a não ser nós mesmos - por instantes, eu fiz uma ocupação: virei moradora da caixa amarela da sua escultura - a espuma era meu colchão - e fiz da sua cama meu teto - que tem o pé direito muito alto - e fiz de você a parte que substitui meu não.

                                    Como a escultura no pé da sua cama, percebo-me também como caixas anexadas a outras - onde cada uma tenta se abrir para fora - mas antes não abriram as portas entre si - como num labirinto de retalhos sem relação e construído ao avesso - nesse lugar, assino um contrato com você para perder a aptidão em não me perder - e adentrar a morada dos sonhos que se escondem nas abas de nossas verdades latentes quando estamos despertos - e curiosamente, quando não estamos abraçados.

                                    O copo que acabou de cair da tua mão…

                                    Sobre o poema Galinheiro de CCS
                                    Anônimo, Fevereiro de 2019

                                    Às vezes perambulamos por muitas páginas até achar um poema que nos diga algo que já sabemos, mas que, por sua provocação modulada, nos força a aprender algo a mais da densidade do agora. Esta palavra que tem sido apropriada tantas vezes e que nunca é palpável como deveria, retorna sempre em poemas de tom emergencial, como é o caso de “Galinheiro”. Sempre estamos buscando um sinal nas coisas que possa nos consolar de nossa indiferença pelos detalhes que nascem em cada canto. O mundo pululante de beleza nos tem cativo e nos esgota todas as energias, até que depois das lágrimas deitamos inertes para sucumbir, nem que seja por uma noite. Buscamos um texto para confirmar nossa posição perceptiva frente ao mundo; que o acaso nos coloque então na mão um texto que traga a atitude de escrever no seio da vontade de comunicar o agora. Se este for o encontro signifcativo em um dia indiferente, sorte a nossa. Mas esses poemas que nos falam da emergência da comunicação com o agora são emitidos e lançados como orações do deserto. Eles não chegam até você a não ser pelo processo aleatório dos clamores de quem escreve na mais devastada solidão. Uma oração é ouvida, mesmo que o mundo todo não ouça. Esta é a contradição do processo todo. Sabemos da oração emitida pelo agora, sabemos que clamores surgem no desértico da nossa vida, mas não lhe damos ouvido, mesmo tendo nas mãos a delicadeza do poeta que foi do céu ao inferno e retorna com os olhos turvos para nos doar um minuto de sua dor transfigurada nas palavras. Como ficamos decepcionados quando ao ler um texto, o que vemos nele é algo para o qual ainda não estamos preparados; não é por acaso que tudo o que mais agrada tem a doçura do comum, e na ingenuidade de se sentir menor que a mensagem, tratamos o poema como uma voz opressora da qual tentamos nos esquecer logo em seguida. Mas o poema “Galinheiro” faz a provocação logo no primeiro verso, Será difícil ouvir a oblíqua voz da poesia, porque ela vem de um momento muito distante do teu, dizendo que já preexiste uma difícil escuta da voz oblíqua da poesia, sendo o oblíquo a maneira que a oração-flecha do deserto sobe ao ar. E no oblíquo dessa voz, ainda aguardamos o nosso momento, não de compreensão do poema, mas da postura de estar diante do poético, na imagem instantânea de um copo que se quebra na sua frente.

                                    o agora
                                    embebeda-se na água
                                    do copo que acabou de cair da tua mão –
                                    ainda assim não ousastes olhar mesmo para ele...

                                    O problema não é puramente textual quando a voz da poesia está em marcha. É a atitude perante o ínfimo sobre a mesa, ou o grandioso em alto mar que agita a membrana do sentido. Sem a expectativa de maravilhar-se, temos apenas o texto. E quantos e quantos textos foram lidos apenas enquanto texto, meros documentos de arquivo e abandono. Quantas páginas viradas na intenção de terminar o livro e pular para um próximo desejando apenas somar, ao invés de tornar tudo diagrama. E ainda lendo o “Galinheiro” pela quinta vez, a provocação inicial passa arrastando os cantos do poema, porque este é um poema de “canto”, onde o verso quebra para te jogar um degrau acima na sua reflexão sobre o ato ascético de ouvir a voz da poesia. Triste condição inicial de saber que o oblíquo da voz poética anda em descompasso com nosso momento. Sabendo que a poesia vem de um momento diferente do seu, nenhuma atitude que não a humildade poderá te ajudar. Humildade perante a vastidão da experiência silenciosa a qual sua alma ainda se move em um novelo de preguiça. Ao longo dos anos é fácil perder a vontade de ouvir, porque é mais fácil saber nomes, conceitos, datas de publicação, anedotas de autores, e isto se torna um jogo, uma espécie de dinâmica de coleta em que falseamos o essencial por desrespeito velado. No fim do dia, o leitor que se preze, aquele que coloca a cabeça no travesseiro e sabe que o dia seguinte será a continuação do poema que ele não consegue ainda ouvir, não consegue parar de pensar no descompasso do momento entre a oração do deserto lançada e a escuta real do poema. A zona de sombra pode se tornar uma vida onde nunca ouviríamos o oblíquo que nos clama. Nossa habilidade em silenciar a inspiração é sempre prodigiosa. Andei na rua e vi muitas solidões transformadas em ilusões de vitória alada que, sedutoras a tudo recusam e por isso são nada! – perdidas nas faixas de pedestres, olhando de um lado pro outro sem saber pra qual lado seguir. Para o leitor que não está para as preces, resta a inanição da sua vontade, que é a pior coisa a se perder em termos de arte, tanto em sua produção quanto em descida no poema. Até uma certa altura da vida, vemos os poemas como uma mensagem meio extravagante, meio distante da realidade de uma vida corrida e apressada, como um objeto escolar inútil para a vida do homem prático. Lemos estes poemas como uma espécie de distração da nossa condição de pequenez. Ler um poema como fato de cultura, como tentativa de ficar mais “inteligente” é a mais fácil das leituras, aquela que se mensura, só que a inteligência vem tarde demais. Sobre a entrada no poema, acredito que a melhor é aquela em que acreditamo-nos dentro do texto, como se entra em uma casa de inverno, assim como os poemas de Rilke nos são convidativos, um lugar de abrigo, e mesmo na constatação triste do primeiro verso de “Galinheiro” ainda queremos habitar no poema, assim como Na “Canção de Alfred Prufrock” de T.S. Eliot, a neblina amarela e as ruas vazias são aconchegantes a seu modo, porque pelo menos estamos lá dentro do poema. Durante nossa leitura, parece que estamos mais próximos do agora. E essa fala que o poema inicia, levando o leitor na vertigem vertical de cada quebra de verso, no enjambement tortuoso da sintaxe, expande uma noção de clamor. A voz do poema clama pela presentificação do agora de quem o lê, e encurralados olhamos para os lados para não nos depararmos com as calçadas vazias. Dentro do poema, ainda podemos flertar com a ideia de que estamos no agora, o texto sendo este portal de angústia, este estertor de vontade. Ficamos quietos em cada verso, esperando que um milagre nos afaste a insegurança na vida, que alguma vitalidade nos tome por completo e diga o sublime daqui por diante. Talvez a descrença na voz da poesia - e por isso ela ande oblíqua a correr por lugares onde seríamos felizes – é o fato de que adiantados em relação ao agora, querendo dele apenas a alegria e não as agruras, rodopiamos e caímos na outra plataforma: a nostalgia. “Galinheiro” é um poema de encurralamento, como disse a autora em uma correspondência: “...parece que tem uma coisa que me puxa pra dentro dele e se eu não ficar muito quietinha ele vai me pegar. É bem absurdo saber disso!”, um texto em que não podemos sair para outro sem a culpa de nossa leitura precária ginasiana. Caso o poema “Galinheiro” figure em alguma antologia, ele não poderia vir em outra posição que não a primeira página.

                                    sempre pontualmente adiantado
                                    ou nostalgicamente atrasado –
                                    estás sempre em algum lugar
                                    que pode ser muito bem vulgarmente denominado.
                                    Por isso, não aceitas a incompletude do agora,
                                    onde tudo é perfeitamente inacabado,
                                    e, além disso, perfeitamente solitário.


                                    E o leitor segue pontualmente adiantado, nostalgicamente atrasado e vulgarmente denominado tentando respirar dentro dos versos. Está aqui a tríade de acuamento do poema todo. Qualquer movimento que não seja impulsionado sobre o agora se reduz à ansiedade em relação ao real, em nostalgia ou simplismo. Querendo a completude do agora, passamos a nos comportar com fraqueza, querendo todas as faces do objeto e sua transcendência sem nos darmos ao esforço e a certeza fenomenológica de que o objeto apenas se apresenta parcialmente. No fim, “Galinheiro” é um poema de sanidade, razão, coragem, tudo o que convoca para uma saída da inércia. É um poema que abre uma pequena janela para a entrada da beleza, mas uma beleza que exige uma postura presentificadora do ato de contemplação. É um poema para a consciência de outros poemas. O copo que te cai das mãos “tem mais metafísica que aquelas árvores”.

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                                    Galinheiro

                                    CCS, 2018

                                    Se existe uma serpente de desejo secreto e indecoroso em minha alma, que eu não a enxote com vergastes para fora de minha consciência. Pois uma serpente é uma coisa criada. Tem a sua raison d´être. Em seu próprio ser há beleza e realidade. O meu próprio horror é um tributo a sua realidade.

                                    D. H. Lawrence, sobre seu poema Snake em Alguma poesia

                                    Será difícil ouvir a oblíqua voz da poesia,
                                    porque ela vem de um momento
                                    muito distante do teu,
                                    e que por isso, não fora inda consumado:
                                    o de agora.

                                    Estás sempre pontualmente adiantado
                                    ou nostalgicamente atrasado –
                                    estás sempre em algum lugar que pode ser
                                    muito bem vulgarmente denominado.

                                    Por isso, não aceitas a incompletude do agora,
                                    onde tudo é perfeitamente inacabado, e,
                                    além disso, perfeitamente solitário.
                                    Por ele ser tão pequeno assim –
                                    anda com pezinhos de alfinetes –
                                    – impossíveis de deixar pegadas –
                                    comunica-se com os seres mais inimagináveis
                                    e pisa em terras mais exóticas possíveis
                                    Mesmo ele estando na tua frente
                                    sobriamente acocorado
                                    com as costas eretas –
                                    tu olhas de soslaio e achas que é
                                    uma manchinha escura que some
                                    assim que pegas o álcool para limpar –
                                    acocorado de novo, o agora
                                    embebeda-se na água
                                    do copo que acabou de cair da tua mão –
                                    ainda assim não ousastes olhar mesmo para ele
                                    Quando não aceitas que tua solidão te acompanhe,
                                    contenta-te com ilusões e com a rainha de todas elas –
                                    a ideia de que podes ser também, uma ilusão
                                    e tentas em vão transformar-te nela
                                    sem que possas criar –
                                    em vez de abandonar –
                                    tua solidão –
                                    e então, com reverência e admiração,
                                    criar um indiferente galinheiro –
                                    nem que seja para matar
                                    todas as galinhas.
                                    Andei na rua e vi muitas solidões
                                    transformadas em ilusões
                                    de vitória alada que, sedutoras
                                    a tudo recusam e por isso são nada! –
                                    perdidas nas faixas de pedestres,
                                    olhando de um lado pro outro
                                    sem saber pra qual lado seguir.

                                    Quem sabe,
                                    aquele que cria ilusões devia por elas velar
                                    em seus mais inevitáveis e insossos
                                    estados de perdição –
                                    e o que quer que esteja coagulado
                                    no íntimo segredo da ficção
                                    parece muito mais distante da ilusão
                                    do que da galinha criada para o abate
                                    ao passo que finda não só a tarde
                                    mas também a luz do sol quente que parte

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                                    A incompreensibilidade da compreensão

                                    CCS, agosto de 2017

                                    A caçada, RES, 2017
                                    A caçada, RES, 2017

                                    Existe uma fala com a qual eu não quero mais compactuar: a fala eu não entendo diante de um desenho de Rubens. Dizer isto sobre um desenho de Rubens em particular é dizer algo tão óbvio que é como se nunca fosse preciso ser dito, pois é como uma propriedade dele — do desenho — e não de quem diz. O problema desta afirmação, porém, não vem de sua reluzente veracidade — mas sim da suposta contraditoriedade que ela esconde: o fato de que o que eu não compreendo não é o que estou vendo, mas sim aquilo que eu estou compreendendo — daquilo que obviamente eu não compreendo. Aí começa todo o problema e o desenho de Rubens se apresenta como uma fonte inevitável deste problema epistemológico tão abissal.

                                    Dada a absurdidade dos fatos propostos, e sua tal crueldade de me colocar num lugar tão grande e distante em que não existe possibilidade de uma afirmação anular outra, eu quero assumir que, diante da verdade inquestionável de que eu não compreendo o desenho do Rubens, eu o compreendo. A partir do momento que não mais compreendo o que compreendo, digo então que quero compreender o que é que eu não compreendo. O que eu não compreendo é a absurda presença que ele toma tendo tido todos seus atributos tirados de si — apresentando-se na forma mais nua, ele se presenteia — nos presenteia — como nunca se imaginou fazer. Ele é inteiramente feito de lacuna — e é esta sua compreensão — a de que ele não precisa ter elementos somados a ele para que ele seja — seja outro, seja desenho, seja difícil, seja compreensão ou incompreensão — não importa o objeto aqui nomeado — ele nomeia o objeto que ele precisa ser — ou não, pois me parece que ele não precisa ser nada — nem disso — para sê-lo!

                                    O que eu não compreendo é o esforço de Rubens em tirar — em afastar — em suspirar; o desenho é, assim, feito de — apesar de muitas latas de tinta acrílica, sprays, e bastões oleosos — negatividade; e de acordo com o fato exposto acima de que, neste lugar, uma afirmação não admite negação — não é nada contraditório dizer que o desenho é feito essencialmente de suspiro. E disso, vem o fato — isso não deveria mais ser surpreendente neste momento, dadas todas as exposições — de não existir mais nada, o que inclui seu aparente oposto — a completude — feita de lacuna — ! Uma lacuna cujo ritmo magnético entabula os elementos persistentes à sua própria constituição.

                                    O que eu não compreendo é como é possível tirar tanta vivacidade de algo que teoricamente não tem vida; como é possível fazer movimento a partir de algo que não tinha dentro de si potência de movimento? Ou sou apenas eu que acreditava ingenuamente que um papel não está ansioso para ser algo a mais? Não posso perder para o papel — Rubens, como um dramaturgo, não pode perder para um papel que precisaria estar preenchido — como um papel de teatro ansioso por uma identidade — despido de qualquer uma, num lugar em que afirmações não têm negações, Rubens não assume mais papel algum — traz desta relação nada menos que um papel de tudo esvaziado, cujo resquício da forma retirada de si foi a de um desenho — eu não sei se o nome disso poderia continuar a ser esse.

                                    Rubens não pode perder pois tudo já está perdido — tudo foi tirado — tudo foi abismado — perder, aqui, seria render-se à afirmação — que não tem lugar neste lugar abismático — de que o verbo perder se identifica com a atitude de perder.

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