Varejeira

 

No funcionamento do seu ser
há uma interna disfunção
para a qual não há cura –
mas que a cura
ao passo que ela a cumpre –
ao passo que ela a tira –
de um compasso qualquer –
daqueles extremamente insípidos

 

Presença surda de quem
sem usar a asa –
atravessa a rua — e vai
ao que tem nômade casa –
ao que não se aposenta –
ao tropeço de todo norte –
ao que açambarca a diária morte
e seus ninhos de decepção –
ao que me tenta à vida –
ao eterno minuto –
que como ladrão –
inadvertidamente entra

 

E — de novo –
ao pôr seu ovo

ela — secreta –
a pura secreção
que pinga da colher –
molhando os vestidos
de seu armário
brilhante e mofado –
transborda o que não há na panela –
e que como tudo no verão
desajusta do corpo dela:
ela limpou o avental o quanto pôde

 

Sou mesmo igual a qualquer um
que olha para os dois lados
ao atravessar a rua — ?
sinto o mesmo medo –
sinto mesmo o medo? –
se ele for de verdade
que um clarão de farol aceso               (bombeiro não impede
venha em minha direção                      (o fogo do clarão
a cada gaveta que eu abrir —                (vindo de quem fala)
e enlouqueça todo o grau
de miopia espiritual –
e que o secreto tenha sua cabeça
não mais emoldurada
pelos meus caprichos de desatenção

 

sem saber renunciar — estive no topo do formigueiro — de lá não saí — sem comer — sem avisar — exposta — a explosão anteposta — posta à mesa - antes de mim — sem comprar mistura — a varejeira cortou a última cabeça de couve — e se olhou no espelho — e viu em meu rosto: está pronta a janta

 

CCS, 26 de junho de 2018

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