Uma Cabana na Montanha: Homenagem à Cabana Frei Otto de Res em Itu

 

1

As pernas

 

Quero realmente me levantar da lama: mas ela está grudada

à minha pele de maneira atraente, minha sujeira

me sustenta, me move de lugar, me aprofunda nela.

Rubens Espírito Santo, Buraco, 26 de agosto de 2018

 

Eu estava estabilizada — três pernas pavimentavam meu caminho — impediam-me de andar –, estava sobre um tripé — inútil. Hoje, não estou com ele o tempo todo, nas poucas horas que estou sem ele, encontro inconstância — incerteza — instabilidade — que me fazem andar de forma errante, por onde encontro vários lamaçais — neles me afogo — às vezes posso trazer de seu fundo um desenho — um poema — às vezes reencontro minha terceira perna boiando — ela não me abandona — mesmo que eu me despeça dela — ela é várias — como uma mergulhia, se enraiza em outras terras depois de separada da sua origem — o lamaçal é feito do sangue que dela jorrou quando a tirei de mim: ela está aí — sozinha — principalmente onde eu não posso ir — avistá-la é ver um centímetro do infinito — e caso eu aceite não fazer só aquilo que posso e não ir — e ficar com ela na diástole do meu coração — entre um batimento e outro — posso até ouvir o dela destilando o meu: depois de você — diz o coração dela segurando a porta que range quando eu bato — de você entrar e entregar as outras duas pernas.

 

2

Búfalos

 

[…] só quando meus olhos não alcançarem mais, quando olhar e não ver mais nada, começarei realmente a esvaziar o pote sujo de merda que sou.

Rubens Espírito Santo, Buraco, 26 de agosto de 2018

 

De que vale a minha voz se ela contiver apenas uma frequência? De que vale achar que sigo minha sina se aceito apenas a comum amizade de qualquer ser suficientemente dócil — e não a pré-história em carne viva dos búfalos que rodeiam o bosque de meu estômago? Que soe a trompa da lenda de sua caça ao desenhar — e me faça ver sua mentira — eles estão me caçando o tempo todo — quando, na verdade, a próxima a morrer de fome seria eu — mas ainda não sei usar uma arma de caça. Acredito, ainda, na dureza dos muros que me protegem deles — mas o que eu achava ser um muro sólido é só minha sombra fugidia — mesmo assim posso tentar me sensibilizar do limite dessa sombra e ver que ela gera nosso abrigo — eles moram no mesmo lugar que eu — em situação de cabana — o único refúgio não é a cabana — mas dançar com os búfalos ao som da trompa de caça — a ninguém.

 

3

Uma montanha

 

Não dou conta de contar para mim mesmo o que me atormenta […]

Rubens Espírito Santo, Buraco, 26 de agosto de 2018

 

Preciso andar por horas — com duas, três ou até nenhuma perna — esfolar meus pés e subir penosamente pelas minhas verdades até chegar ao cume de uma montanha desconhecida — para ver que sua base nunca esteve fixada em minha memória — e que mesmo assim, ela me leva para seu começo — despertando-me para seu irremediável fim.

Os músculos palpitantes da montanha dificultam qualquer andar tranquilo e me lembram de esquecer tudo que vi se quiser atingir a visão que os insetos habitantes do fundo das colinas veem. Sua altura — os degraus de sua escada anônima camuflada por musgos escorregadios — me remonta ao esforço que será preciso para escalá-la e recuperar a poesia que perdi — e que, ao topo, o ser da montanha se desdobrará — ao passo que eu dobre meus joelhos.

Não posso saber sua localização ou nome — não posso inclusive colocar em suas terras qualquer bandeira com o meu. Minha deficiência em aceitar sua história — ou melhor, em aceitar tudo que não deriva dela — grita; sua lei proíbe minha juventude tardia e falsa — meu paraíso terrestre — de entrar; me proíbe de isolar a essência íntima da minha insuficiência — nomeá-la apenas a paralisaria — enquanto na verdade ela me move — mais do que eu a movo — mesmo que eu não aceite — o desenho — ou o poema — a nomeia em sua própria língua — não sublima nada — mas é sua terceira perna — aquela sem a qual eu não posso viver.

 

4

O olho da cabana

 

[…] tenho que levantar e seguir, ancorado ou não, pernas

quebradas ou não, tenho que me rastejar em direção à luz.

Rubens Espírito Santo, Buraco, 26 de agosto de 2018

 

Um desenho pequeno — ou uma inscrição à mão em letras trêmulas — tudo que tinha era um guardanapo no bolso — foi o convite que precisava para ver a entrada da cabana da montanha na qual irei dormir nesta noite enregelada pelos ventos da minha imaginação perversa. Os guardas do caminho incerto deste papel amassado fizeram o cadastro de perdição minha e, só aí, empreenderam uma topoanálise que me fez sair fora de mim — e, consequentemente, sair de casa — para enfim encontrar uma cabana: pela sua janela, vejo uma pequena lâmpada — é o olho da cabana — que me vigia por um rastro — um fio de luz: um caminho estreito o suficiente para aumentar minha atenção e fazer com que minha teimosia seja penetrável pela vigilância — mesmo longe, sua luz é suficiente para me fazer ver as grades em meus olhos — para ver o calendário da minha vida — cuja duração ficou espessa e imperceptível ao mesmo tempo — para guiar meus passos errantes na escuridão que encontro nas fibras instáveis deste pequenino papel — através dele, ingresso outra vida — com análoga intensidade, sou rapidamente expulsa se me recuso a comprar — e a pagar cada vez mais caro — pelo mesmo ingresso todos os dias — de presenciar o espetáculo — o trabalho velado pela pequena lâmpada da cabana — e sua existência obstinada a construir sonhos — com seu olho, ela sabe ler as linhas — das quais sou apenas o diagrama — apagadas porém eternamente inscritas — em minha alma.

 

CCS, 4 de setembro de 2018

www.000webhost.com