O escritor mais ligado à literatura é também o mais inclinado a se livrar dela. Ela é tudo para ele, e ele não pode se contentar nem se manter nela.

Maurice Blanchot, A parte do fogo, pág. 33

 

 

Todas as sextas, às 17h, Rubens desenha. Nesta sexta, todos os materiais estavam dispostos, assim como dois papéis Arches 300g/m² dispostos na parede a 30 cm de altura do chão. Porém, às 17h, Rubens não apareceu e essa foi sua sessão de desenho.

Tenho afirmado muito veementemente, sobretudo, nos últimos meses, o quanto a presença física de Rubens é importante para mim. Por muitos motivos, inclusive pela tensão que ela gera em mim, e por um ativo estado de, ao menos, estar mais atenta do que estou normalmente.

Hoje na sessão de desenho, um estado novo foi inaugurado em mim. Quando a Anna disse que a sessão havia acabado sem que Rubens tivesse corporalmente aparecido, eu fiquei sem chão. Repetia em minha cabeça — sem ter ainda coragem de repetir em voz alta por medo da resposta: é sério? como assim? não, mas não dá, ele não pode fazer isso conosco, é uma sessão muito esperada, como eu vou ser capaz de gerar em mim algum estado de choque sem seu desenho? Ele pode fazer isso, sobretudo, com ele? Depois de tantas perguntas, suas iminentes negações e variações, vi a recorrente e contundente afirmação do que é uma grande obra: a de que eu estava errada.

 

A fatura

 

Aquela atmosfera densa foi inalada por mim, transformando minha cabeça, antes cheia de pensamentos inúteis, em gravidade, em uma espécie de presença — o que eu via pelo fato de que eu, uma pessoa eminentemente que quer ir embora, querendo ficar — e continuar a sentir aquela presença insuperável e quase impossível de ser acoplada pelo verbo sentir — dado que meu corpo a repele, ao mesmo tempo que a deseja com fervor. Acredito que esta atmosfera tem o tamanho da envergadura que as asas de Rubens têm sobre o mundo — elas encostaram em mim e, sem nenhum gesto de impedimento, fizeram com que eu parasse — com que eu me abrisse sem me dilacerar — com que eu sentisse o perigo de uma vida em sua magnitude sem achar que vou morrer num precipício — acredito fortemente, ainda, que não se trata mais de mim ou de minhas impressões como indivíduo — suas asas abertas são um fato — talvez o único que conheço hoje em que as diferentes interpretações não são mais algo que afetam sua existência — apesar de fazerem parte dela, suas asas são algo factível a ponto de que interpretações não triscam suas arestas — nem as depenam — talvez o poder do gesto inegável de suas asas invisíveis e ossudas são o fato mais visível da fatura de sua obra — e o vazio cortante que provém de seu desenho não é feito de nada — mas é vazio daquilo que achamos saber nomear — é vazio do que achamos ser nossas forças — seu vazio vem da solidão necessária de um homem que constrói sua fatura em si mesmo — e ele só o faz sabendo que a escansão do espetáculo da vida não depende do que ele faça — sem esperar resultados, ele o faz — faz o que pode e como o faz.

 

O dispêndio

 

Quando Rubens desenha, materiais são gastos e depositados amplamente sobre o papel; como se eles quisessem atrair nossa visão para nos roubar à outra coisa — para trair nossa percepção — para falar algo a mais que não está ali — mas que está, definitivamente, ali — como se eles precisassem daquela realidade para poderem viver uma outra — permitindo, para nós que os vemos, transportar-nos a uma outra realidade, mesmo que momentaneamente — afirmando sua presença mágica — delineada pelo fato de que esta é feita apenas por tinta, lápis e papel.

O que é absurdamente surreal da sessão de hoje é que nenhum material foi preciso ter sido gasto — não in strictu sensu, pois o dia todo foi, em cada minuto seu, gastado e esgotado até seu limite — para que eu pudesse ser sequestrada de mim — desta vez, não por mim mesma — para que se abrisse, com uma furadeira, uma fenda em mim — em meu pensamento radial — em minha constituição — em minha visão monótona da realidade — e passasse a finalmente ver algo novo — através de algo que não se colocava em minha frente com materiais não usuais de desenho. Dessa maneira, dá pra ver como o desenho de Rubens é altamente sofisticado e, através disso, é visível algo do qual certamente não tenho corpo para falar hoje — mas que, de forma opaca através de lágrimas, posso vislumbrar: sobre a manobra do desenho não ser algo feita no desenho, mas fora dele — ver isso é urgente e a pedagogia da sessão de hoje me diz isso mais do que qualquer outra.

 

A escansão

 

Mentalmente, separo os minutos do dia — entre os quais devo trabalhar, meditar, descansar, ler, comer, me divertir — cindindo-os mais do que já são. Muito diferente disso, Rubens escande os movimentos — amplia-os — alarga a trama axadrezada que existe no meio de qualquer dia — no meio de qualquer pensamento — a fim de andar sobre todos os poros que existem em qualquer superfície — intimidando seus espaços, questionando aquilo que acreditamos ser a superfície de algo e mostrando que uma superfície nada esconde — nós que nos escondemos por aquilo que achamos dela — ela está aberta e esperando para ser desvendada e, sobretudo, mostrar que não há não há nada de recôndito atrás dela — a não ser nossa vergonha em se abrir e nos mostrar amedrontados pelos poderosos tentáculos de um artista que reivindica da ação de desenhar apenas de um jeito — pois ao renunciar do que pensa — ao escandir qualquer ponto fixo — está desenhando o tempo todo.

 

O suporte

 

O desenho é uma função: aquela que perdi — aquela de estar presente nas coisas, aquela através da qual passa uma vida — aquela que eu não suporto sem que ele exista — ele é um suporte — para aguentar um estado cada vez maior de tensão, de abertura, de silêncio que recebe uma fala, a fala vinda das coisas, para então produzir a fala de quem desenha. Esse estado de carne viva daquele que desenha me parece insuportável — e Rubens pode fazer um desenho como o de hoje justamente por estar sempre neste estado — e talvez ser o suporte, ele mesmo, de uma fala poderosa que já independe do desenho — o suporte de uma fratura que, por si só, não se aguenta em pé. Como se os materiais de desenho de Rubens cessassem de ser termos e se abrissem a uma realidade que antes só podia ser paralela — mas que hoje têm uma materialidade própria — mesmo paralela, é presente — sendo ficcional, é absolutamente real. Não é um prédio que, ao desabar, revela um bonito céu por trás dele: é um prédio que, dissolvido em escombros, descobre — para quem aceita andar em escombros — janelas que são absurdas órbitas a enquadrarem céus nunca antes imaginados — inclusive pela nossa mais parca imaginação, que, ao se limitar a imaginar, não constrói céus onde não poderia existir nenhum.

 

A fratura

 

Instaurando a madrugada, rasante, as asas de Rubens não me mostram como voar — pois eu não preciso atingir as nuvens para ver a tormenta rasgar um comprimento que vai do céu até os vales — mas sim aquela que me rasga da cabeça aos pés, mostrando-me que meu rasgo está sempre lá — mesmo quando me acho altiva ou pequena demais — e me faz cair de uma altura que é exatamente a minha — por mais que pareça maior. Seu voo alto me faz ver que você está mais próximo do chão do que eu; seu voo me arregala os olhos — ao mesmo tempo sedentos por quererem ver e semicerrados por não quererem ver — seu rastro, como um papel liso, estende-se sobre o chão trêmulo sob meus pés, negando quem diz que não há desenho hoje para ver — e, ao me fundir ao cenário, tornando-me seu desenho, ele me faz respirar através de uma garganta entrecortada — dizendo-me que não há outra tormenta a respirar — que não há outra escolha a não ser continuar — naquele mesmo caminho trilhado pelo rasgo que minha garganta, que, mesmo mal ousando respirar através de uma fenda, desenhou — e que, através dele, posso ver infinitos outros desenhos — de gargantas outras que gritam — sobretudo mais silenciosamente — que a minha. Quem sabe um dia eu possa aprender com Rubens que posso escrever sem me utilizar da escrita — que posso me abrir sem me desfazer — ou ainda, que posso estar desfeita e, mesmo assim, estar viva — num mar revolto que ainda não descobri — mas que aparece quando meus olhos se acostumam a uma escuridão — que apaga rápido — pois galopa em seu próprio feixe de luz.

Um desenho feito de branco

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