Um desenho cortante

Após a sessão de desenho de sexta de RES de 1 de junho de 2018

 

 

 

Depositar tinta em papeis fissurados no papel — com um corte — virá-los do avesso — ver o que aconteceu depois — ou foi antes? — o corte já estava lá — mas não era visto tão nitidamente; — trabalhar seu verso — estancar sua cicatriz pelo lado de dentro.

O desenho se dá a partir da tinta — aparentemente — desperdiçada; — da sobra — daquilo que não foi absorvido pela frente — daquilo que não aceitou ficar ali — ou daquilo cuja estadia não fora aceita — mas que não tomou a chancela da fissura como fechada — não precisou de autorização e se instalou onde não era esperado — e a tinta passa então a servir não mais à sua função primeira — não mais pretende cobrir qualquer superfície — mas descobrir alguma — desobstruindo caminho para que o que não está atrás dela passe — ainda assim — através de seu corte.

E o que é tido como elemento básico de um desenho — a linha — vem à superfície através de massas de cor que dão lugar à ela — através do que foi construído apenas para que a construção de uma linha fosse possível — e a peregrinação em busca de uma linha onde só havia sombra — mesmo que branca — faz com que o desenho passe a se desenhar — com linhas nascidas de espaços entre tintas — ela nasce de seu fundo. O desenho não é desenhado — não dá para conjugá–lo na voz passiva; a partir das condições que você cria, ele se desenha — e, ao cortar quem perto dele chega, ele desenha condições para que seu entorno seja, também, um desenho que se cria — não que aceite apenas ser criado.

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