Todos os dias: Para o Mestre

 

Me reconheço

imagem passageira

presa de um ciclo

imortal

Giuseppe Ungaretti, Céu claro, 1918

 

Todos os dias

você me lembra

como estou

desesperadamente necessitada –

inclusive pela minha negligência de nem sempre me lembrar de que porra preciso tanto –

e talvez só precise lembrar que

não preciso de tantas coisas assim

 

Todos os dias

Você me lembra

de dizer bom dia

aos meus demônios –

não conheço todos mas –

(não importa o que eu queira) –

eles não têm tantas novidades assim

 

Todos os dias

Você me lembra

que estes ignóbeis poemas

não são sementes mas cereais matinais

feitos de mentiras cuja data de validade já passou

precisam ser jogadas fora –

como quando se tira

o lixo ao fim do dia –

diferente do que se pode acreditar –

talvez eu não tenha tantas sementes assim

 

Todos os dias

Você me lembra

de que não há tanta diferença assim

entre estar feliz ou triste –

ainda são o mesmo

usando roupas de diferentes cores -

e para diferi-los tenho de mudar

o que está dentro deles -

nem que eu use

um uniforme azul deliberadamente comum

 

Todos os dias

Você me lembra

da distância grande

entre minha cabeça e meus pés –

Não consigo acreditar –

eles são tão gelados –

se eu pudesse ao menos esquentá-los

sem me mexer e esquentá-los –

como sua sombra é quente –

e igualmente

lentamente

mover minha cabeça

e esfriá-la –

esfriá-la mesmo

 

Todos os dias

Você me olha

como se estivesse

do topo de uma Montanha –

se eu pudesse

forrar minha cama com um lençol

costurado de pedaços de céu

eu iria subir em cima dela

e talvez ver o que você está vendo –

mas não dá — não é assim

 

Todos os dias

Você me olha

com um olhar de sombras

da cor de tudo que dá medo:

da cor do mar devorador –

da cor do céu em tempestade –

da cor da noite sorrateira –

rastejante que se enrola

nas cortinas das janelas e fala baixo:

vem e não volte.

 

Será que um dia poderei entender que você é aquilo que está na expressão todos os dias

aquilo que não se oprime mesmo quando se põe debaixo da asa de um pássaro faminto

aquilo que não se oprime mesmo quando está morando na calçada

aquilo que não se oprime mesmo quando é um imperador

aquilo que não deixa ser encapsulado por um grito entalado — mas enlata o grito

aquilo que sabe que Esperança é uma mulher que anda numa rua sem saída e que não conhece muitas ruas

mas seus pés estão quentes e sempre em movimento –

ela não para de andar –

sem cansaço –

à procura de um motor –

que não é só seu:

ela esqueceu seu nome

 

CCS, 4 de dezembro de 2017

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