Em seu travesseiro erguido de branco

ali jazia — mais vivo que o meu –

um rosto cuja largura era toda aquela -

não necessariamente a que ela queria

mas a que eu procurava

 

Ao rejeitar pálido semblante,

escolhia as cores azul e magenta -

escolhia não viver num mundo

cujo adjetivo mais preciso era desinteressante.

 

Os que a viam não podiam supor:

ela era mais que um magro rosto

ela era um com tudo isto

ela fora arrancada não de seus sentidos

mas de uma boca feita de outras cem

cuja fala é tão carnal quanto uma maçã podre -

exceto pelo negro fato

de que não era permitido

ter maçã que fosse podre –

em casa, nenhuma jamais entrou,

mas, através de um travesseiro feito de papel

ela poderia sonhar até deixar de sonhar -

ela é mais que um reflexo –

ela reflete o que está fora de seu alcance -

de madrugada, ao sustentar as horas

que eu não podia mais

ela abre as opulentas mãos

para a graça se dar no meu silêncio

a se impor mais do que a brilhante e estática televisão ligada

sua figura incessante

se desloca de seu imóvel quadrante -

apaziguando meu frio –

aparece sob a fumaça de cigarro

e na minha falta de palavras

ela diz que o horizonte mudou de lugar -

agora é vertical –

agora fitá-lo prescinde nele cair ou subir:

andar de ponta cabeça –

ajuda-me a largar o enfado

e a enxergar com os olhos revirados

 

gallery/mc041

Desenho

Para Mirela Cabral 

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