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A noite tingia de escuro o rio, cujo brilho era salvo por inúmeras luzes amarelas — faróis acesos de carros e postes de rua. Um escuro solvente me chamava a ser seu diluente — me dizia ser loucura não participar dele. Um fio desesperado enodava minha visão lembrando-me do que eu fiz — e, sobretudo, do que não fiz — com o dia; será que errei? fui leviana, idiota, soube viver em um dia, dei conta de alguma coisa? arrastei o dia ou fui arrastada, deixei sobras o bastante ou fui intercalada por elas, derrubando-me e questionando-me até seu último minuto — até o último minuto relutante, extremamente falante; eu fui mesmo do mesmo tamanho do dia ou suficientemente menor? Dúvidas que rasgam meu rosto em lágrimas, deixando finos rastros — como o rasgo da Gabi com o canivete no desenho deixava um fino corredor de luz amarela — a mostarda, camada imediatamente anterior à da superfície branca — essas dúvidas saem correndo na minha frente, deixando-me encurralada num corredor estreito e escuro — escuro como a noite, estreito como minha visão.

Essas dúvidas — inevitáveis para quem tenta algo; para tentadores — palavra ambígua que sugere tanto alguém que tenta fazer algo como alguém que provoca algo — como o diabo é tentador — dúvidas essas me lembram das dúvidas de Gabi depois de seu desenho com Mirela na última sexta — uma sessão incansável e tentadora em que as duas despenderam seus esforços para tentar aquilo que existe papel — ou nelas — para deixar seus rastros de um dia num pedaço de papel –- rastros daquilo que elas acreditam ser — talvez não propriamente ser elas, mas quem sabe aquilo que elas acreditam ser alguma coisa que venha delas — ou através delas — e de sua tentação — e, que nesse vir, possa as arrastar pelos cabelos — escultura e desenho.

Sorrateiro e abençoado este ser que mora no fazer — que não podia servir nunca como depositário de vontades, mas apenas de coisas da mesma matéria que ele — coisas fazedouras — e que estas não tivessem propriedades de juiz, mas de réu; réu definitivamente disposto a ser fissurado e interrogado, nunca derrotado — mas deixado a ser o que ele é — e que, por excelência, não é nós.

Este ser que mora no fazer — seu uivo é baixo — parece que a Mirela o ouve sem saber — as duas tentaram-no até o fim — seu focinho vem por entre os galhos — cruza escuros e clarões — luta à medida em que elas lutam — se depara com ketchups e cola branca — mesmo com tantos obstáculos, suas patas insistem em caminhar — desobstruindo tudo — desbastando tudo — ele abre caminho frente ao papel — rente à qualquer loucura — ele não diz nada — queremos que diga, contudo — é um animal — é maior — e mais vivo — do que poderíamos pensar — antes de tudo, ele existe — depois de tudo — ele vem se deitar — mesmo que debilitado — o desenho está feito.

4 de agosto de 2017

Sobre um desenho feito por Gabi Celan e Mirela Cabral

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