No dia em que eu quis desenhar

coloquei latas de tinta sobre a mesa –

de repente não eram latas de tinta

que estavam sobre a mesa

mas bocas que eu devia alimentar –

não eram bocas cheias de tinta

mas cheias de fome –

e estavam abertas –

roubaram meu pão hoje de manhã

 

No dia em que eu quis queimar

pedi à chama acesa no peito

sair da sua abstinência

e pôr meu coração a nu

fazer da obscuridade de sua ciência

ser também de meu direito –

desfazendo o nó que chamo de eu

andar não mais em terra minha

mas no externo e claro breu –

mesmo em brasa

ainda estou muito frio para queimar

 

No dia em que eu quis andar

mergulhei no caminho de flor

do interior de meu jardim;

chafurdei-me a reunir buquê –

e vi tudo que chamei de amor

desabrochar como urticária –

abracei meu impulso de criar

e finalmente vi que meu pulso

abrasava todo lado interno:

ele ainda não soube dizer sim

ao convite de sair de seu inferno

 

No dia em que eu quis tocar

vi as mãos que achei serem minhas

me tinham como suas –

trancarem-me para fora –

seu cadeado me abriu

para o que achei não ser meu –

as mãos que você

tinha como suas –

e o que achei serem nuvens

eram brumas de espanto pulverizado

que se chocaram com o aço deformado

das visões que eu achava

serem nuas –

quando você foi meu pincel

tudo o que sempre temi

sorriu para mim ao fim do dia:

a tela tornou-se fugidia

e voou mais longe do que eu

no dia em que quis voar

 

CCS, 9 de setembro de 2018

O dia em que quis voar

 

Sobre a sessão de desenho de Giulia Naccarato e Rodrigo Attalah no Atelier do Centro

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