Assisto o momento em que o dia declina e, ao impressionar-me com ele, pergunto-me se seria possível construir, também, algum tipo de declinação. Pergunto-me se é possível andar não sobre a calçada, como sempre fiz — mas talvez debaixo dela — como fazem as raízes das árvores antigas cuja violência em crescer quebra qualquer insistência que o asfalto de uma calçada tem — questionando qualquer administração oculta não tanto da rua — mas de mim mesmo ao acreditar que meu andar se dá apenas em cima dela.

Pergunto-me como faria para construir um pico em que poderia me comunicar com o céu; não um pico alto como as torres das igrejas góticas — que se afastavam do chão para chegar ao céu — mas como picos de lego — lugares minúsculos que, ao exigir minha inclinação, me aproximariam de minha própria sombra — e, se eu puder alcançá-la, desprenderia-me dela — e não reconheceria minha própria silhueta ao andar — debaixo — da rua.

Pergunto-me como construir algo que, mesmo de concreto, fosse fugidio — algo cujo movimento interno não deixaria ele se render ao seu próprio servilismo — e nem ao meu. Mas sei que um movimento desse ordenaria a qualquer fruta um apodrecimento precoce — antes mesmo dela maturar.

Decido então esquecer um pouco todas essas perguntas e jogo um osso para algum cachorro de rua avançar sobre ele; enquanto isso, peço para que seu inquieto ir e vir enfim envolva a minha inquietação de ir — mas não a de vir — e leve as duas junto — me ensinando que não posso dormir enquanto me afogo — quem sabe assim as invisíveis asas que impulsionaram seu corpo a buscar o osso impulsionem o chão sob meus pés a se inclinar — ou melhor, meus pés a terem força para inclinar o chão em que piso — e eu possa enfim me levantar de mim — e ver a tempestade não através de uma janela envolta por paredes de concreto — mas através das paredes constituintes de mim — aquelas que não são nada além de enormes janelas — que agora se abrem — deixando entrar todas as folhas que o pesado vento carrega — alicerces móveis sobre os quais não é sequer concebível a possibilidade de alguém querer construir ou destruir algo que não seja móvel — como elas.

Paredes móveis

Definição poética do escritório de arquitetura Despacho*

CCS

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