Ritmo e Linguagem

 

Parte I

O signo não é totalmente arbitrário

 

Gostaria, de forma muito introdutória, tentar pensar algumas noções de linguística aqui. Há um linguista (além de poeta e tradutor) muito recente e importante, que se dedicou a continuar e desenvolver as teorias de Benveniste: Henri Meschonnic. A seguinte noção, proposta por Benveniste, é muito importante para Meschonnic desenvolver seus ambiciosos estudos e para o que quero pensar aqui:

 

[…] não é uma adição de signos que produz o sentido, é ao contrário, o sentido, concebido globalmente, que se realiza e se divide em signos particulares, que são as palavras.

Benveniste, Problemas de línguistica geral II, 1989, pág. 64

 

A partir disso, Meschonnic pôde pensar nas noções de contínuo e de ritmo na linguagem. Tanto Benveniste quanto Meschonnic apontam que o uso corrente da palavra ritmo não é o mesmo usado pelos pré- socráticos (Heráclito e Demócrito): o uso corrente aponta para alternância entre tempos fortes e fracos (concepção desde Platão), ou seja, para a estrutura de algo, enquanto que, para os gregos da pré era, o ritmo era uma organização do movimento, como o vai e vem das ondas do mar (verbo tropos). Dessa forma, suas teorias linguísticas avançam no sentido que querem acordar este sentido adormecido da palavra ritmo e chegar no ponto que mostram, para além da descontinuidade que existe entre as coisas e seus nomes, uma continuidade cujo âmbito vai muito além da língua — pois alcança o reino invisível da linguagem — exposto nas relações entre língua, pensamento, antropologia, filosofia, teologia, sociedade, política, entre outros. A língua, então, seria um tipo de organização do movimento da fala.

Do fragmento de Benveniste também é possível inferir a gravidade da afirmação de Gerardo de Melo Mourão sobre Guimarães Rosa. A afirmação é a seguinte:

 

[…] Confundiram o vigor crônico de sua linguagem com a declamação grandiloqüente. O barroco euclidiano degenerou no rococó dos deslumbrados, que durante tantos anos produziu no país uma literatura altissonante e suspeita na qual se pode inscrever a obra do próprio Guimarães Rosa, um grande escritor ambíguo, que cometeu o engano ou a impotência de uma confusão fatal: em vez de produzir uma linguagem, produziu uma língua.

Gerardo Melo Mourão, A Invenção do saber

 

Aqui ele contrasta fortemente linguagem e língua e diz que, antes de mais nada, linguagem não se resume a mera manipulação da língua. Colocando como Benveniste — ou como Rubens –, uma obra não seria feita de palavras ou desenhos (não é adição de signos que produz o sentido…) mas a obra, ao se fazer, faz aquilo que em seguida atribuímos aos seus signos — sejam eles desenhos, poemas ou esculturas. Neste patamar — no qual grandes artistas que entraram neste grande ritmo, talvez como Hölderlin (Tudo é ritmo, todo o destino do homem é um só ritmo celeste, como toda obra de arte é um ritmo único[1]) ou Rubens (…que importa o nome para quem tem a carne[2]) talvez não há mais diferença entre o ato de nomear e a coisa a ser nomeada — por isso, língua, aqui, não é arbitrária — ela está impregnada de linguagem — o que não é sempre que acontece.

Neste ao se fazer, talvez exista o nascimento — ou antes a aparição de algo já existente — de uma linguagem — de algo em funcionamento — de algo em movimento que fora capturado. Talvez isso tenha a ver com o fato de que, no Brasil, não temos um escritor do porte de Dostoievski ou Shakespeare — o que coaduna com a afirmação de Gerardo Melo Mourão sobre Guimarães — talvez, o que ressoe na afirmação de Gerardo é que a confusão pode ser que ele pode não ter caído no terreno fértil da linguagem do brasileiro — o que ressoaria na língua — mas sim no seu terreno desabitado e baldio. (Atenção: não estou, aqui, criticando a obra de Guimarães, pois, não poderia fazê-lo, mas estou investigando a frase de Gerardo, que, por si só indica, também, um grande pensamento se fazendo) O problema, porém, não é esse, mas o de não suportar a fertilidade de um terreno propriamente desabitado do brasileiro e de ver as próprias mãos despedaçando ao tocar nas palavras ditas por ele e tentar escrevê-las — e então saber-se linguagem murmurante deste vazio que nunca fora antes captado ou distorcido — ou mesmo entendido — como brasileiro.

 

Parte II

 

Sobre um artista amar seu país

Quando lembramos de um povo

é por aquilo que ele criou.

Francis Bacon, Entrevistas com Francis Bacon, pág. 125

 

Ao conviver com Rubens, parece-me quase inverossímil que um verdadeiro artista ou poeta não nutra uma paixão pelo seu país — ou ainda que sua obra não seja fruto — e também semente — desta paixão. E esta paixão é profundamente diferente daquela de um torcedor de futebol que talvez nutra ideias muito excludentes e particulares sobre o que seria seu país ser vencedor ou perdedor, restringindo-as a apenas competições esportivas. Acredito que um artista que não declamar sua intimidade com seu país talvez não tenha começado a fazer arte — mas qual é o porquê disso? Um artista — ou um poeta — aqui, não interessa a destreza de um homem perante a tinta ou à métrica de versos,; este é só um âmbito do artista. O que interessa é a sua grandiosidade de espírito e a possibilidade de que esta pessoa, essencialmente, vê não só a si próprio mas a tudo ao seu redor como intacto e inesgotável — não teria porque não ver a mesma possibilidade aberta em seu país; talvez como o fato de Francis Bacon enxergar cor em cadáveres fazia dele um pintor[3] — ou o contrário — ambas nos mostram uma postura extremamente ativa e afirmativa perante a vida. Talvez uma pessoa que não esteja em pesquisa — em ritmo — não veja naquilo que a cerca este tipo de movimento, pois ela própria não está nele, e por isso projeta, em tudo que vê, apenas a ideia de água parada — exatamente o oposto do que acontece com um artista cujo alcance de visão supera o comprimento de seus passos — e seus olhos passam a ser instrumentos tão poderosos quanto seus próprios pés, levando-o a lugares não só distantes mais inalcançáveis por pés apenas humanos — lugares pertencentes a outros tempos. Talvez seja disso que Emerson fala quando diz que um grande homem não tem realmente necessidade de viajar pois a viagem pode estar em si mesmo[4]. Um artista neste nível vê vida onde só achamos ver morte: esse mesmo tipo de conversão acontece com ele — com seus materiais — com sua história — não haveria porque não acontecer com o país onde mora.

Este grau de liberdade talvez seja a chave para uma das grandes contradições presentes na vida de uma pessoa que atingiu este grau de seriedade perante ela: a de que ele se libertou de todo e qualquer invólucro, de que se despiu de qualquer impedimento para vestir a única máscara — aquela que ele não conseguira vestir à luz do dia — que importa: a sua própria camisa de força — aquela que força sua libertação.

Emerson também nos dá uma pista do porquê não se cria — além de tudo — nós mesmos — um povo — quando reclama-se demais, elimina-se a possibilidade de alguém se reerguer com o braço de alguém, mas só reforça aquela de nos empurrarmos todos para baixo num canto uníssono — além dessa postura toda ser infrutífera, mostra um profundo excesso de confiança em si — baseado em tudo menos na realidade[5].

 

Quero ser brasileiro; não quero ser alemão, não quero ser universal, não quero ser artista, mas quero ser, eminentemente, brasileiro.

Rubens Espírito Santo

 

Talvez essa fala de Rubens mostra o simples — mas talvez não tão simples de enxergar — fato de que o lugar que ele nasceu e vive não difere da matéria que ele próprio é; colocando-se em posição de igualdade perante aqueles que aqui também residem, Res tira qualquer particularidade ou especialidade que ele poderia vir a ter — mostrando que ele é, apesar de tudo — inclusive apesar de todas particularidades e especialidades que ele tem –, igual a qualquer um.

Talvez um discurso que mostre indiferença à sua língua ou nação esconda, na verdade, um outro: aquele de quem se acha especial e que, por algum motivo, não encontrou ainda um lugar que seja tão especial quanto ele — e, em vez de construir este lugar com suas próprias mãos, tenta disfarçar com indiferença uma lamentação sem fim.

 

Parte III

A origem não é longe da saída:

mas os dois estão longe de mim

 

Tendo chegado até aqui, porém, em vez de estar com a sensação de quem subiu uma escada, a que fica é aquela de quem, num grande tombo, desceu um barranco — e o que mais grita neste tombo não é a sua dor — mas ainda a ausência da manifestação dessa dor — a sua latência — pois afinal de contas, parece que há uma inversão na concepção de artista e o que ele faz — aprendemos que ele é alguém que cria — parece-me, porém, que ele não cria nada — mas põe uma lamparina neste caroço inchado que carrega dentro de si — ou até mesmo que o carrega — aprendendo a andar sem aquilo que lhe fazia apoio — mudando o centro gravitacional de seu corpo — além de toda sua constituição — fazendo com que moscas sejam nele lançadas pelo seu verão — e cada palavra que ele escreve não é, realmente, um signo sendo adicionado — mas um passo no escuro desta área cuja superfície já não é iluminada — pois a lamparina está atapetada de moscas — que antes rodopiavam erroneamente por todos os lugares — hoje perseguem um único ponto — aquele cujo fogo promete sua aniquilação — e o que é inaugurado aqui talvez seja a capacidade de mergulhar nas profundidades de algo supostamente sem profundidade: um ponto.

 

[1] Agamben, O Homem sem conteúdo, Autêntica, pág. 155

[2] Rubens Espírito Santo, Crematório 5, 2018

[3] Se você for a um desses grandes açougues e andar por aqueles salões enormes cheios de cadáveres, encontrará carne, peixe, aves e outras coisas mais ali deitadas, mortas. E, como pintor, você não pode deixar de perceber toda a beleza do colorido da carne. David Sylvester, Entrevistas com Francis Bacon, CosacNaify, pág. 46

[4] Viajar é o prazer do tolo. As nossas primeiras viagens nos revelam que os lugares não têm importância alguma. Em casa sonho que em Nápoles, em Roma, posso inebriar-me com o belo e perder minha tristeza. Arrumo as malas, abraço os amigos, embarco, e enfim, chego a Nápoles e lá está, no entanto, em mim mesmo, a mesma tristeza, a minha angústia inexorável, idêntica à que eu evitava. Procuro ver o Vaticano e os palácios. Finjo embriagar-me de panoramas e sugestões, mas, na verdade, isso não acontece. A minha sombra anda comigo aonde quer que eu vá. Emerson, Ensaios, Imago, pág. 59

[5] O descontentamento é escassez e confiança em si mesmo: é debilidade da vontade. Lamentai as calamidades, se podeis com isso ajudar aquele que sofre; se não, cuidai de vosso próprio trabalho e já o mal começara a ser reparado. Vamos àqueles que choram totalmente e nos sentamos e choramos como eles, por camaradagem, em vez de comunicar-lhes verdade e saúde em rudes choques elétricos, restabelecendo-lhes uma vez mais a comunicação com sua própria razão. Emerson, Ensaios, Imago, pág. 57

 

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