Um texto clandestino:

 

exilados em miniatura por uma noite

 

Texto sobre residência CCS — Luca Parise*

 

Mas o que você diria de um suicídio anterior, um suicídio que nos fizesse regressar, mas para o outro lado da existência, e não para o lado da morte? Só isso teria valor pra mim, não sinto apetite pela morte, sinto apetite de não ser, de nunca ter caído nesse reduto de imbecilidades, de abdicações, de renúncias e de encontros obtusos.

 

Artaud, citado por Enrique Vila Matas em Breve História da Literatura Portátil, pág. 42

 

Quando você olha para o fim de uma rua que não tem fim, sua tenacidade e força dançam no topo de uma escada que seus olhos percorrem ansiosos — e um leão de pelúcia te dá a mão quando vê que seus olhos quase subiram alto demais.

No meio de nossos silêncios, há uma linha que os entrelaça com falas — ela não tenta mais passar pela garganta e sufocá-la — mas sai pela sua janela carregando em sua ponta balões coloridos — fazendo escultura no céu.

Você desenha plantas de projetos — mas as plantas da sua Máquina de desenho desenham também em você os projetos delas — elas trilham caminhos em seu espírito que você trilha nas ruas da cidade, te autorizando a adentrar edifícios singulares cujas portas só abrem de madrugada — e você não se dá conta que entra neles — talvez porque esteja dormindo quando se aproxima da entrada principal. Como elas, você trabalha não somente quando está compondo — mas quando atinge incertas decomposições.

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As sensações mínimas têm compartimentos secretos e inabitáveis — sua fugacidade mantêm intacta uma independência das associações turvas que nossa mania utilitária de se relacionar com os dias costuma fazer — eu me encontrei com várias delas embaixo do pires das suas xícaras — ali, fui atravessada pela chuva de chá preto que você derramou sobre minha razão — acordando em mim um morador errante — que não se importa de pagar sua passagem — porque você pagou a minha — para um exílio — permanente de mim.

Ao dormirmos, de repente, éramos páginas de um livro a serem viradas lentamente pelos dedos que tecem a noite — conversávamos em silêncio — virávamos miniaturas de nós — a melhor forma que um exilado tem de possuir coisas — distantes de nós, possuíamos nada — a não ser nós mesmos — por instantes, eu fiz uma ocupação: virei moradora da caixa amarela da sua escultura — a espuma era meu colchão — e fiz da sua cama meu teto — que tem o pé direito muito alto — e fiz de você a parte que substitui meu não.

 

Como a escultura no pé da sua cama, percebo-me também como caixas anexadas a outras — onde cada uma tenta se abrir para fora — mas antes não abriram as portas entre si — como num labirinto de retalhos sem relação e construído ao avesso — nesse lugar, assino um contrato com você para perder a aptidão em não me perder — e adentrar a morada dos sonhos que se escondem nas abas de nossas verdades latentes quando estamos despertos — e curiosamente, quando não estamos abraçados.

 

CCS, 10 de agosto de 2018

 

*Luca Parise é artista visual do Atelier do Centro e um dos membros do Despacho, escritório de Arquitetura do Atelier do Centro.

 

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