Em 1845, quando tinha vinte e sete anos, Emily Brönte escreveu seu único romance, O Morro dos ventos uivantes, sob o pseudônimo masculino de Ellis Bell. Um ano depois, terminou-o e morreu de tuberculose quando fez trinta anos. Bataille afirma, em A Literatura e o Mal, que sua morte tem relação com a experiência profunda que Emily Brönte teve ao escrever O Morro dos Ventos Uivantes.

O Morro dos ventos uivantes tem um enredo simples que não é o que lhe confere relevância. Ele gira em volta do amor e da cólera existente entre as personagens Catherine e Heathcliff, seres apaixonados que nunca chegaram a consumar seu amor. Divide-se em duas partes: a primeira, protagonizada por Catherine Earnshaw e a segunda, por sua filha, Catherine Linton. Nestes episódios, suspeito estarem presentes algumas das seguintes noções: histeria, intermitência, origem, interdito.

Aqui estão, além de características e passagens de um livro muito importante para mim (um dos primeiros romances que li na pré-adolescência e que ainda revisito hoje), apenas conjecturas e indagações.

Apenas para situar os que não leram — pois não se resume um livro desses contando sua aparente história — Catherine era uma menina bem-nascida e Heathcliff, seu irmão adotivo, cuja origem era desconhecida. Eles eram apaixonados e, assim, viviam num mundo à parte que era, para eles, mais sólido que o mundo real: sua selvageria libertária — condição da poesia em que, talvez, a infância adentra — seria impedida no cotidiano tão fechado quanto o deles — ou quanto aquele ditado por qualquer sociedade. Certo dia Catherine casa-se com um homem rico, causando a fuga de Heathcliff, que volta anos mais tarde para se vingar.

 

Histeria

 

Catherine Earnshaw oscilava entre suas regras próprias e as regras que lhe eram impostas. Era uma pessoa de personalidade intensa e moldada por uma movediça angústia; explosiva e absorvida em delírios, movia-se, aparentemente, por seus impulsos — mas não totalmente: não se casou com aquele por quem seu pulso fervia, Heathcliff, mas com aquele cuja companhia resultaria numa união aceitável socialmente e financeiramente satisfatória — mesmo que isso fosse contra todos seus impulsos febris — e até os aumentasse, sendo causa da frequência deles — seria talvez para a manutenção da loucura que Catherine recusou sua loucura primeira — aquela com Heathcliff, que lhe fazia retornar à selvageria infantil, mas que lhe era impossível hoje sustentar?

Interdito

Catherine não conseguiria escolher por Heathcliff, mesmo indo contra seus sentimentos fortes; sua força não era suficiente para movê-la neste sentido — mas contra ele — talvez sua fraqueza seria. Tanto Heathcliff quanto sua razão funcionavam como interditos para seu desejo, fazendo-a oscilar entre ela e algo representado por Heathcliff — algo diversamente proibido: entre ela mesma e sua mais profunda fenda — consumar seu amor com ele seria destruir a si própria; ficar com Heathcliff seria estar no intervalo, ao passo que a figura de Linton lhe concede contínuas promessas de interrupção da fenda com motivos externos, superficiais e temporários: boa casa, bichos de estimação, boas roupas.

Ela mesma profere a gravidade que teria uma relação com Heathcliff com as seguintes declarações — que não nos parecem ser de amor — ao menos não aquilo que normalmente se concebe como amor — e talvez sejam, justamente, os reais motivos pelos quais ela escolhera não ficar com ele — para tentar se salvar — recusando, porém, sua tentativa de salvação:

 

[…] Meu amor por Heathcliff se assemelha às rochas eternas sob o bosque, uma fonte de alegria pouco visível, mas necessária, Nelly, eu sou Heathcliff! Ele está sempre, sempre em minha mente. Não como fonte de prazer, […] mas como meu próprio ser. Então, não volte a falar da nossa separação, …. é impossível….

O morro dos ventos uivantes, Zahar, edição comentada, pág. 111

 

[…] ele (Heathcliff) nunca vai saber o quanto eu o amo…e isso não é porque ele é bonito, Nelly, mas porque é mais eu mesma do que eu. Qualquer que seja a substância das almas, a minha e a dele são feitas da mesma coisa.

O morro dos ventos uivantes, Zahar, edição comentada, pág. 109

 

Origem

 

Em um de seus poemas (Often rebuked…), Emily Brönte parece delinear uma espécie de conclusão da trama de O morro dos ventos uivantes, como se trilhasse um intermediário para as possibilidades de Catherine: não o caminho que ela escolheu — o que recusa completamente a selvageria representada por Heathcliff — nem o caminho oposto — aquele em que ela a abraçaria — ambos apresentam riscos dela se perder, e foi o que aconteceu — mas um caminho do meio:

 

Muitas vezes repreendido, porém sempre retornando

Aos primeiros sentimentos que nasceram comigo,

Trocando a busca por riqueza e aprendizado

Por sonhos de coisas que não podem ser:

 

Hoje, não vou procurar a região das sombras;

Tenho medo de sua insustentável e lúgubre imensidão;

E visões aumentando, legiões após legiões,

Aproximam tão estranhamente o mundo irreal.

 

Caminharei, mas não nos velhos rastros heróicos,

E não nos caminhos da moral elevada,

E não entre as faces parcialmente distintas,

As formas nubladas de uma história há muito passada.

 

Vou andar onde a minha própria natureza seria líder:

Aflige-me escolher um outro guia:

Onde os rebanhos cinza nos vales estão se alimentando;

Onde o vento sopra selvagem no lado da montanha.

 

Que podem revelar as montanhas solitárias?

Mais glória e luto do que eu possa dizer:

A Terra que acorda um coração humano para o sentimento

Pode centrar ambos os mundos do céu e o inferno.

 

Ao escolher o caminho liderado por sua própria natureza, aquele por onde o vento sopra selvagem, ela admite que, neste caminho, as montanhas têm mais a dizer que ela mesma — talvez seja este caminho próximo daquele que ultrapasse os limites da histeria e esbarre no da arte — em que a suspensão de leis, bem como as leis da sua vontade de fala é inaugurada — e com isso, a suspensão de outras coisas também — e o que era lençol de trevas vira possibilidade para acontecer o brilho da luz das estrelas — tornando-se ambos criaturas sígnicas tanto de luz quanto de escuro — e neste morro de ventos uivantes, céu e montanha não são apenas fundo e figura — as personagens principais talvez seriam o uivo dos ventos que se demora quando há a presença do morro para os receber — e nada para os parar — assim como nada para acontecer.

Catherine morre ao dar à luz uma menina, filha de Edgar Linton, o homem por quem Catherine ficou ao se recusar a seguir seu desejo por Heathcliff. Como se o resultado de sua recusa ao proibido custasse sua morte — ela não pode tocar o proibido, mas poderia fugir dele?

 

Por que traiu seu próprio coração, Cathy? Não tenho uma única palavra de consolo para oferecer. Você merece tudo isso. Matou a si mesma. […] Amo a minha assassina…mas a sua! Como eu poderia?

Heathcliff ao reencontrar Catherine, quando ela está em seu leito de morte, pág. 189

 

Intermitência

 

Como uma contração muscular dolorosa e intermitente, a gravidez de Catherine causou, além de sua morte, seu próprio nome: a segunda Catherine, Catherine Linton. Como se tivesse de nascer outra Catherine para dar à lembrança da primeira um concreto lembrete daquilo que ela não pôde fazer: mergulhar em sua própria inanidade e trazer, do fundo do mar, uma pérola — suja de silêncio — não de omissão — que Catherine e Heathcliff não suportaram pronunciar — a histeria que Catherine não soube articular e a matou ao gerar vida — a dureza que Heathcliff não soube amolecer e o matará, ironicamente, de inanição.

Em seguida, há um diálogo entre Catherine Linton criança e Ellen, a governanta:

 

– Ellen, quando é que vou poder andar até o alto daqueles morros? O que há do outro lado…é o mar?

– Não, srta. Cathy, são outros morros, iguais a esse.

– E como são aquelas rochas douradas quando a gente fica debaixo delas?

Expliquei que eram rochas nuas e que mal tinham terra suficiente em suas fendas para permitir o crescimento de árvores mirradas.

– E por que é que continuam tão iluminadas muito depois de ter escurecido aqui?

 

Nas proximidades do Morro dos Ventos Uivantes, a desgraça estava instaurada em todos os corações, como mostra a fala de Ellen sobre as rochas nuas que mal têm terra em suas fendas para permitir o crescimento de árvores. Como uma entidade verbal barulhenta pronta para embaraçar qualquer ouvido — e produzir o despertar –, Cathy surge com falas infantis que escapam ao sentido e desejam subir à impenetrabilidade do alto dos morros — ao excesso de falta da histérica.

 

Arte

 

A esse excesso de falta, poderia-se entender alguém que não existe — alguém que procura, portanto, alcançar o dom da existência — dado que a existência não pode resumir apenas à que me tem, como clama Catherine: […] há ou deveria haver uma existência para além de nós. De que valeria eu ter sido criada se estivesse inteiramente contida aqui? — por que, entrementes, não pode-se, ao menos, vislumbrar relances de tal benção, já que se cultiva, com beatitude furiosa, ser alguém segundo outrem — um ser criado — ser verificado por algo que, ao passar a existir, possa me verificar — convertendo a histeria em viscosidade capaz de afundar homens — cujos pés tornam-se raízes deles mesmos — e ao desistirem ambos de seu sexo, relacionam-se — ser criado e criador, suspensos, relacionam-se na mesma palavra — aquela que minha vida bebeu — e por isso eu não posso ler.

 

CCS, 14 de agosto de 2018

O Morro dos ventos uivantes e a Histeria

 

Relatório da aula de segunda de Res de 14 de agosto de 2018 sobre Histeria

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