Galinheiro

 

Será difícil ouvir a oblíqua voz da poesia,

porque ela vem de um momento

muito distante do teu,

e que por isso, não fora inda consumado:

o de agora.

 

Estás sempre pontualmente adiantado

ou nostalgicamente atrasado –

estás sempre em algum lugar que pode ser

muito bem vulgarmente denominado.

 

Por isso, não aceitas a incompletude do agora,

onde tudo é perfeitamente inacabado, e,

além disso, perfeitamente solitário.

Por ele ser tão pequeno assim –

anda com pezinhos de alfinetes –

– impossíveis de deixar pegadas –

comunica-se com os seres mais inimagináveis

e pisa em terras mais exóticas possíveis

 

Mesmo ele estando na tua frente

sobriamente acocorado

com as costas eretas –

tu olhas de soslaio e achas que é

uma manchinha escura que some

assim que pegas o álcool para limpar –

acocorado de novo, o agora

embebeda-se na água

do copo que acabou de cair da tua mão –

ainda assim não ousastes olhar mesmo para ele

 

Quando não aceitas que tua solidão te acompanhe,

contenta-te com ilusões e com a rainha de todas elas –

a ideia de que podes ser também, uma ilusão

e tentas em vão transformar-te nela

sem que possas criar –

em vez de abandonar –

tua solidão –

e então, com reverência e admiração,

criar um indiferente galinheiro –

nem que seja para matar

todas as galinhas.

 

Andei na rua e vi muitas solidões

transformadas em ilusões

de vitória alada que, sedutoras

a tudo recusam e por isso são nada! –

perdidas nas faixas de pedestres,

olhando de um lado pro outro

sem saber pra qual lado seguir.

 

Quem sabe,

aquele que cria ilusões devia por elas velar

em seus mais inevitáveis e insossos

estados de perdição –

e o que quer que esteja coagulado

no íntimo segredo da ficção

parece muito mais distante da ilusão

do que da galinha criada para o abate

ao passo que finda não só a tarde

mas também a luz do sol quente que parte

 

CCS, 25 de janeiro de 2018

 

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