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Antes do almoço

Existe uma coisa que nos arruína, vê, uma coisa estúpida que nos entrava é o gosto, o bom gosto. Temos muito disso, quero dizer que nós nos inquietamos mais do que é necessário. O terror do ruim nos invade como um nevoeiro (um sujo nevoeiro de dezembro, que chega repetinamente, que gela nossas entranhas, que cheira mau e nos irrita os olhos), de sorte que, não ousando avançar, ficamos imóveis. Não percebes o quanto nos tornamos críticos? Temos poéticas próprias, princípios, ideias prontas, regras, enfim, tal como Delille e Marmontel! Elas são outras, mas que isso importa! O que nos falta é audácia. Que voltem, portanto, os belos tempos da minha adolescência, quando eu ejaculava em três dias um drama em cinco atos. De tanto escrúpulo, já estamos parecidos com essas pobres beatas que não vivem de tanto temer o inferno, e que despertam seu confessor bem cedo para acusarem-se de ter abortado à noite em sonhos. Deixemos de nos inquietar tanto com o resultado. Fodamos, fodamos. 

 

Flaubert em Oitava carta para Louis Bouilhet, 1850, em Novembro, Iluminuras

Flaubert

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