5

Antes do almoço

O livro do desassossego - composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa, Companhia das Letras

 

 

[…] Sinto na minha pessoa uma força religiosa, uma espécie de oração, uma semelhança de clamor. Mas a reação contra mim desce-me da inteligência…

pág. 52

 

Nós nunca nos realizamos.

Somos dois abismos – um poço fitando o céu.

pág. 56

 

Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. 

pág. 56

 

Tudo que sabemos é impressão nossa, e tudo que somos é uma impressão alheia, isolada de nós, que, sentindo-nos, nos constituímos nossos próprios espectadores ativos, nossos deuses por licença da Câmara.

pág. 58

 

Conquistei, palmo a pequeno palmo, o terreno interior que nascera meu. Reclamei, espaço a pequeno espaço, o pântano em que me quedara nulo. Pari meu ser definitivo, mas tirei-me a ferros de mim mesmo.

pág. 59

 

Talvez o meu destino seja eternamente ser guarda-livros, e a poesia e a literatura uma borboleta que, pousando-me na cabeça, me torne tanto mais ridículo quanto maior for a sua própria beleza. 

pág. 60

Fernando Pessoa

gallery/fer
www.000webhost.com