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Assisto o momento em que o dia declina e, ao impressionar-me com ele, pergunto-me se seria possível construir, também, algum tipo de declinação. Pergunto-me se é possível andar não sobre a calçada, como sempre fiz – mas talvez debaixo dela – como fazem as raízes das árvores antigas cuja violência em crescer quebra qualquer insistência que o asfalto de uma calçada tem – questionando qualquer administração oculta não tanto da rua – mas de mim mesmo ao acreditar que meu andar se dá apenas em cima dela.

Pergunto-me como faria para construir um pico em que poderia me comunicar com o céu; não um pico alto como as torres das igrejas góticas – que se afastavam do chão para chegar ao céu – mas como picos de lego – lugares minúsculos que, ao exigir minha inclinação, me aproximariam de minha própria sombra – e, se eu puder alcançá-la, desprenderia-me dela – e não reconheceria minha própria silhueta ao andar – debaixo – da rua.

Pergunto-me como construir algo que, mesmo de concreto, fosse fugidio – algo cujo movimento interno não deixaria ele se render ao seu próprio servilismo – e nem ao meu. Mas sei que um movimento desse ordenaria a qualquer fruta um apodrecimento precoce – antes mesmo dela maturar.

Decido então esquecer um pouco todas essas perguntas e jogo um osso para algum cachorro de rua avançar sobre ele; enquanto isso, peço para que seu inquieto ir e vir enfim envolva a minha inquietação de ir – mas não a de vir – e leve as duas junto – me ensinando que não posso dormir enquanto me afogo – quem sabe assim as invisíveis asas que impulsionaram seu corpo a buscar o osso impulsionem o chão sob meus pés a se inclinar – ou melhor, meus pés a terem força para inclinar o chão em que piso – e eu possa enfim me levantar de mim – e ver a tempestade não através de uma janela envolta por paredes de concreto – mas através das paredes constituintes de mim – aquelas que não são nada além de enormes janelas – que agora se abrem – deixando entrar todas as folhas que o pesado vento carrega – alicerces móveis sobre os quais não é sequer concebível a possibilidade de alguém querer construir ou destruir algo que não seja móvel – como elas.

 

*Despacho é o escritório de arquitetura do Atelier do Centro composto por Luca Parise, Rafael Chvaicer e Alex Muñoz.

Texto sobre o Despacho*:

 

Paredes móveis

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