Não há nada de admirável numa provação à qual não podemos nos furtar, nada que atraia a admiração no fato de estar preso e de dar voltas num espaço do qual não se pode sair nem mesmo pela morte, pois, para ali cair, foi preciso exatamente já ter caído fora da vida. Talvez não estejamos em presença de um livro, mas talvez se trate de bem mais do que um livro: da aproximação pura do movimento de que vêm todos os livros, do ponto originário em que, sem dúvida, a obra se perde.

Blanchot, O livro por vir, pág. 313

 

O leitor se sente ligado ao livro pelo movimento de uma busca simbólica, é o leitor que, diante da narrativa, experimenta um poder de afirmação que parece transbordar infinitamente a esfera limitada em que esse poder se exerce, e ele pensa: É muito mais do que uma história, há aqui o pressentimento de uma verdade nova, de uma realidade superior; algo me será revelado, algo que esse maravilhoso autor me destina, que ele viu e quer que eu veja, com a única condição de que eu não me deixe cegar pelo sentido imediato da realidade premente da obra. Assim, ele está prestes a se unir à obra, por uma paixão que chega às vezes até a iluminação , que no mais das vezes se esgota em traduções sutis, quando se trata de um leitor especializado, feliz por poder abrigar sua pequena luz no seio de uma nova profundidade. Essas duas maneiras de ler são ilustres e surgiram há muito séculos: para citar um exemplo, uma delas conduziu aos ricos comentários do Talmude, outras, às experiências extáticas do cabalismo profético, ligadas à contemplação e à manipulação das letras.

Blanchot, O livro por vir, pág. 129

 

 

Estamos sempre entregues ao absoluto de um sentido, da mesma maneira que estamos entregues ao absoluto da fome, do sofrimento físico e de nosso corpo da necessidade; que não há refúgio contra esse sentido que nos persegue em toda parte, nos precede, sempre ali antes de nós, sempre presente na ausência, sempre falante no silêncio. 

Blanchot, O livro por vir, pág. 123

 

[...] as palavras em seu emprego anônimo, são apenas fantasmas, ausências de palavras e por isso mesmo, fazem reinar, no meio do barulho mais atordoador, um silêncio que deve ser realmente o único no qual o homem pode descansar enquanto vive. 

Blanchot, O livro por vir, pág. 85

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