E o que me interessa mais é aquilo que pus no livro sem saber, – aquela parte do inconsciente a que eu desejaria chamar a parte de Deus. – Um livro é sempre uma colaboração e, quanto mais o livro valer, menor é a parte do escriba e maior será o acolhimento de Deus.

Pântanos

 

Escute, pois a minha alma está desesperada. Quantas vezes, quantas vezes fiz este gesto, como num horrível pesadelo em que eu imaginava o céu da minha cama separar-se, cair, rodear-me, pesar sobre o meu peito…e, já quase de pé, quando acordava…afastava de mim, com os braços estendidos, algumas paredes invisíveis… aquele gesto para afastar alguém cujo impuro hálito eu sentia demasiado perto de mim…aguentando, com os braços estendidos, paredes que continuavam a aproximar-se e cuja pesada fragilidade oscila e se desequilibra sobre a nossa cabeça; aquele gesto, também, para lançar longe roupas demasiado pesadas, casacos, que pesavam sobre os nossos ombros. Quantas vezes, procurando um pouco de ar, sufocado, conheci o gesto de abrir janelas…e detive-me, sem esperança, porque uma vez essas janelas abertas, via que davam apenas para pátios interiores, ou para outras salas asfixiantes, para saguões miseráveis, sem sol e sem ar.. e porque, tendo visto isso tudo, em puro desespero, eu gritava com todas as minhas forças: Senhor! Senhor! Estamos terrivelmente fechados…e a minha voz regressava-me inteira, daquela minha asfixia…Que faremos nós, agora? Deveremos procurar, ainda, levantar esse peso de opressão, ou deveremos acostumarmo-nos a respirar mal, com dificuldade, a prolongar, assim, a nossa vida nesse túmulo?

Pântanos, pág. 90

André Gide

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