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Antes do almoço

A falta que faz a escrita

ou olhos de farol alto

 

CCS, 20 de novembro de 2018

 

A falta, que é o que faz a escrita acontecer, parece uma corrida até a geladeira no meio da madrugada para agarrar a primeira coisa que se vê – porque afinal a fome grita lá dentro. E aí, se escreve; mas a fome não acaba – sequer me ilude que acaba – pelo contrário, pede que busque várias coisas – quer que eu a lapide – quer que eu a tente olhar nos olhos – mas eu nunca consegui encarar – no lugar de seus olhos tem dois buracos onde eu posso cair e não voltar. A escrita é uma lápide que me convida exatamente ao oposto do que pode parecer: a estar viva diante dela. A festejar diante do que me sepulta. A satisfazer-me sem comer, a gozar sem fazer sexo, a estabelecer fricção com a parede lisa do meu quarto, a encontrar o espírito do final do século dezoito alemão na varanda minúscula da minha casa, a me molhar no erotismo mais seco e árido. A não viver em segredo – mas a viver o segredo! Acredito que só terei uma obra quando nela estiver escrito a palavra ser – quando ela me ordenar SEJA! numa língua que eu não conheço – e me ordenar a ser justamente onde eu não puder ser.

Esta falta que faz a escrita – este buraco, este vão, – que na verdade é onde está a minha vida – ainda escondida de mim mesma – ainda é motivo que me faz, quando consigo, estar em busca, em peregrinação, em pesquisa – em lágrimas – em êxtase, mesmo que ele se pareça com sofrimento – parecem os buracos dos olhos inexistentes da mulher que me empurrou para subir o morro neste domingo solitário: uma mulher estrangeira no ponto de ônibus ermo.

Ela tinha a pele ocre e segurava malas – ela vinha de longe – seus olhos eram dois bulbos de lâmpadas – recipientes de uma luz maior que a do farol alto dos carros que subiam na neblina – ela andava a passos lentos, quase parada – ela sussurrava palavras – com sapato alto de camurça azul e camiseta desbotada – ela olhou para mim – eu me desviei, constrangida – ela andava em círculos – com medo, olhei para cima e vi as nuvens baixas, quase encostando em mim. Olhei de novo para o círculo que ela parecia circunscrever – iluminado pelo rastro de seus olhos em chamas – ela havia sumido; – ali havia algumas folhas voando – formando o rastro do vento – e senti a barra da minha saia sendo puxada para baixo – ouvi as palavras: eu vim de longe – de mala e cuia – eu vim atrapalhar – e eu vim pra ficar – eu sou você – fiz um esforço com os olhos para realmente ver o que estava vendo: enquanto o vento uivava essas palavras – o chão descia e me puxava para baixo – o céu me empurrava também – tentando me decidir se eu me debatia em meu buraco sendo cavado pelo vento ou se saía correndo, avistei meu ônibus. Subi o degrau que se formou na calçada e fui embora – para minha casa que já não era a mesma.


 

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